GENTE VENEZUELANA | Guerreando en la calle

 

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Omar Castillo, 31, venezuelano morador de Pacaraima-RR. Foto: Adriano Maneo.

Omar consertava celulares na Venezuela e vivia tranquilo com a renda que conseguia. Mas começou a sofrer quando o dinheiro que fazia já não dava para mais nada. Decidiu vir ao Brasil. Passou três meses na rua, antes de conseguir arrumar um lugar para morar, em Pacaraima. Agora planeja aproveitar o desabastecimento venezuelano e viver entre os dois países, levando mercadorias para o país vizinho, podendo assim visitar a família de vez em quando.

Conheça um pouco da história de Omar, a partir de seu relato, nesta, que é a última história do ESPECIAL | GENTE VENEZUELANA:

OMAR CASTILLO, 31, FAZIA MANUTENÇÃO DE CELULARES

Estou no Brasil há mais ou menos seis meses. Sai da Venezuela porque ultimamente o dinheiro não dava nem pra comprar comida. Eu trabalhava consertando celulares, conseguia dinheiro mas não dava pra nada. Eu vim, também, porque estava cansado do governo. Controlavam tudo, da comida ao dinheiro.

Um quilo de arroz aqui vale R$ 2. Lá, era como se custasse R$ 50 e no dia seguinte R$ 60. Era caro demais e o salário mínimo muito baixo. Escolhi o Brasil porque muita gente estava vindo. Estava mais fácil e mais seguro do que ir pra Colômbia por exemplo.

Foi difícil conseguir a passagem. O banco não dava mais do que R$ 10, mais ou menos, em dinheiro vivo. E esse é outro detalhe. Para pagar em cartão por exemplo se um produto custasse 100 Bolívares, cobrariam 500, 600.

Quando cheguei fiquei, como dizem, “guerreando en la calle” [batalhando na rua] porque, imagina, sem conhecer ninguém… Eu só trouxe uma mala com umas roupas e não soltava nunca. Dormi mais ou menos três meses na rua, só com papelão.

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Venezuelanos fazem almoço nas ruas de Pacaraima-RR. Foto: Jesus Zambrano

Hoje moro numa casa alugada com um amigo e uma moça. Fiquei todo o tempo aqui em Pacaraima. Não fui a lugar algum do Brasil ainda.

Eu jamais imaginei que teria que sair da Venezuela e dormir na rua. Jamais! Mas não foi tão mal assim. Como havia muitos venezuelanos fazendo o mesmo todo mundo te dava ânimo. O venezuelano tem isso. Nos tiraram até a comida, mas a gente se diverte todo o tempo. Muita solidariedade, muito apoio, claro que não com todos. Mas isso ajuda a seguir em frente.

E valeu a pena?

Claro que sim! Com trabalho aqui, a situação é outra. Remédio, comida, tudo barato.

Vim sem dinheiro nenhum. Eu trouxe comida e durou quase uma semana.  Fui conhecendo gente e comecei a conseguir dinheiro descarregando caminhões. Eu estava trabalhando num comércio, mas tive que sair e agora estamos inventando coisas, vendendo rifas, fazendo câmbio.

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Imigrante Venezuelano nas ruas de Pacaraima. Foto: Jesus Zambrano

Meu plano agora é levar mercadoria daqui para a Venezuela para vender, já que lá falta muita coisa. Quero ver minha família. Por isso fico aqui na fronteira que é mais perto. Praticamente, vou viver dos dois lados, mas mais aqui do que lá.

Sente muito preconceito?

Como disse, muitos criaram preconceito por causa de alguns que fizeram coisas ruins. Aí generalizam e todos os venezuelanos levam a culpa. Eu penso que da parte dos brasileiros deveria ter mais tolerância. Por causa de um, não podem culpar todos. Viemos com mentalidade de trabalhar.

E outra coisa eu me lembro é que antes dessa migração da Venezuela, muita gente lá na Venezuela vinha do Brasil, do Chile, da Argentina. Digo isso porque eu os conheci. Muitos ficaram multimilionários na Venezuela. E agora que estamos nessa situação por culpa do governo, que nos tirou tudo, porque têm que nos tratar assim? Porque nos tratam mal? Somos todos seres humanos, então, olhem, um pouco mais de tolerância com os venezuelanos, por favor.

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O venezuelano Omar Castillo na rua principal de Pacaraima-RR

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