GENTE VENEZUELANA | A filha brasileira dos Gutiérrez

DSC_0674.jpg
A família Gutiérrez. Foto: Adriano Maneo.

GUSTAVO GUTIÉRREZ, 34, TÉCNICO EM INFORMÁTICA

Conheci a família Gutiérrez a partir do projeto da Casa da Música. Lá, Gustavo recebeu ajuda e foi voluntário por um tempo antes de ser contratado formalmente. É um cara muito dedicado, sério e doce. Decidiu sair da Venezuela quando sua segunda filha estava para nascer. O atendimento médico estava precário e sua esposa e ele decidiram vir para o Brasil.

Leia abaixo o relato sobre a história da família:

Estava tudo muito complicado na Venezuela. A minha esposa estava grávida de sete meses, não conseguíamos pagar o kit cirúrgico, não tinha as primeiras vacinas e nem mesmo luvas.

Eu estava trabalhando no governo, em organizações de eventos, mas o salário não dava para muita coisa. Me disseram que tinha um trabalho aqui, na minha área, e nem pensei; vim direto.

Primeiro, vim sem elas para conseguir um dinheiro para voltar, mas quando cheguei haviam me enganado. Sou técnico em informática e vim trabalhar numa lan house, mas quando cheguei não queriam um venezuelano e não me pagariam o que seria certo. Sem dinheiro, tive que ficar por aqui e tentar outros trabalhos.

As maiores dificuldades no Brasil foram conseguir um emprego digno e a xenofobia.

Quando cheguei, fiquei num quarto pequenininho com minha mãe que já estava aqui. Ela trabalhava lavando louça numa churrascaria, das 18h à meia-noite. Ela tem uma condição que não pode tocar em água fria e ficava com muitas dores na mão, então comecei a trabalhar no lugar dela para podermos sobreviver.

Enquanto isso, conseguimos encontrar uma casinha de madeira abandonada no terreno de um senhor brasileiro que nos deixou ficar lá. Demos uma arrumada na casa, que estava cheia de escorpiões, até cobras. Quando arrumamos um pouquinho fui buscar minha filha e minha esposa, que estava a duas semanas de dar à luz. Aqui pelo menos tínhamos um dinheiro e possibilidade de comprar fraldas.

Em uma igreja daqui da cidade conheci um cara que tinha um aparador de grama e ele me emprestou para que eu saísse pela rua para arrumar dinheiro. O agradeço muito. Consegui alguns serviços cortando grama das casas.

IMG_20181002_152838632_HDR-2
A cidade de Pacaraima

Perto daqui, um senhor mais velho queria limpar seu terreno . Eu já tinha limpado uma parte bem grande e ele me saiu com cinco reais. Eu disse que não era o que tínhamos acordado e ele me disse que eu era um ilegal, que eu estava em seu país que eu não tinha nenhum direito e que ele podia chamar a polícia. Não liguei muito pois eu já tinha estudado um pouco sobre meus direitos aqui, mas me incomodei.

Outra vez, no centro, tentaram jogar o carro em cima de mim minha esposa e minha filha.

Leia aqui Esperança, incerteza, xenofobia e acolhimento: a fronteira Brasil-Venezuela, o meu relato sobre o que observei na porta de entrada dos venezuelanos no Brasil.

No começo foi duro, duro, duro, muito duro. Aqui os serviços são caros, água, luz. Eu conseguia muito pouco dinheiro. Passei uns cinco meses sem conseguir quase nada, 30 reais por mês mais ou menos. Procurava, procurava, e nada de trabalho.

A maestrina [Miriam Blos, que tem um projeto de acolhimento de crianças venezuelanas através da música, em Pacaraima] nos ajudava com o básico. Ainda tenho uma dívida de energia de uns 600 reais, mas graças a Deus a conta de luz ainda está no nome do ex-dono da casa, uma pessoa muito amável. É brasileiro, mas com pai venezuelano. Ele está me ajudando.

Leia aqui Maestrina brasileira acolhe imigrantes na fronteira através da música, para saber mais sobre o projeto.

Depois de algum tempo passando por aqui, conhecendo a maestrina, trabalhando como voluntário e pegando sua confiança consegui o trabalho aqui na fundação.

IMG_20181003_165355075_HDR-2
A Casa da Música, projeto de acolhimento de crianças venezuelanas através da música

Minha meta desde que cheguei foi aprender dominar o idioma entender um pouco da cultura da mentalidade, da economia, da geografia. E, sinceramente, sim, eu gostaria de entrar mais pelo país.

Primeiro, porque tenho interesse em conhecer o Brasil. Segundo, minha área é tecnológica e eu gostaria de compartilhar e ver o que o Brasil tem para me oferecer nessa área. E, terceiro, para minhas filhas conhecerem capitais e coisas assim.

Eu gosto de Pacaraima que é tranquila apesar do problema de imigração. Mas eu gostaria de ter uma oportunidade, uma boa oportunidade para seguir com minha família. Não vou agora porque não tenho recursos, mas se fosse por mim já estaria mais para lá. Eu adoraria mostrar ao Brasil do que nós venezuelanos somos capaz.

Em parte não estou de acordo com o trato que nos dão aos venezuelanos. Mas em parte também sei que somos um pouco culpados, porque quando não nos comportamos bem recebemos coisas más. Mas se generaliza muito. É lamentável, mas é a realidade.

Não há nunca um limite de conhecimento. Não há limites no universo, ele é infinito. E eu recomendaria às pessoas que não pensem que seu copo está cheio de conhecimento. Sempre há o que aprender.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: