GENTE VENEZUELANA | Maestrina brasileira acolhe imigrantes na fronteira através da música

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A Casa da Música, em Pacaraima-RR

Quando a maestrina amazonense Miriam Blós, 55, decidiu tirar um ano sabático na região de Piedra Canaima, na Venezuela, ela não imaginava que os acontecimentos a levariam a criar um dos mais importantes núcleos de acolhimento de imigrantes venezuelanos na fronteira Brasil-Venezuela.

A Casa da Música, em Pacaraima-RR -cidade com pouco mais de 12 mil habitantes, e porta de entrada de quase todos os venezuelanos que migram para o Brasil devido à crise no país vizinho-, é fruto de um trabalho que já vinha sendo desenvolvido desde 1993, em Roraima, mas que ganhou outro sentido quando a maestrina foi tirar um ano de descanso no país vizinho.

Amazonense, ela já desenvolvia o Canários da Amazônia, um projeto voltado à transformação social de crianças em situação de vulnerabilidade, em Roraima, integrando-as em um programa musical desde 1993. Segundo Miriam, “o programa busca provocar o melhor que eles têm na arte, na música, no ser humano, e construir corações musicais de paz, que vão se propor a doar e ser uma luz na humanidade”.

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A maestrina Miriam Blós. Foto: Facebook/Associação Canarinhos da Amazônia

Miriam conta que, durante o sabático na Venezuela, toda vez que descia para Santa Helena de Uairén, a cidade fronteiriça no lado venezuelano, se impressionava com o nicho de pobreza e com a quantidade de crianças na rua que havia nos arredores da cidade. Curiosa e acostumada com o trabalho humanitário, acabou se envolvendo com elas.

“Me dei conta de que eram crianças brasileiras, vivendo numa condição total de risco social, nos nichos de pobreza de Santa Helena, e descobri que a maioria dessas crianças tinham as mães nos garimpos, e que os pais tinham problemas na justiça brasileira. Falavam portunhol e não tinham muito uma identificação. Comecei a levar essas crianças pra Huacupata, onde eu estava passando meu ano sabático. E foi um encontro incrível. Fizemos um trabalho bem interessante de resgate, de buscar uma identificação, de criar um outro segmento de corredor cultural com a Venezuela com as crianças brasileiras”.

A relação de Miriam com a Venezuela já vinha de tempos. Além de fazer muitas especializações na região andina de Mérida, ela também promovia com os canarinhos, encontros de coros e intercâmbios entre corais. Mas foi o trabalho em Huacupata e posteriormente em Pacaraima que a levou a trabalhar com imigrantes.

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Miriam e os canarinhos. Foto: Facebook/Associação Canarinhos da Amazônia

OS IMIGRANTES

Quando o fluxo migratório começou com os indígenas Warao entrando no Brasil, em 2014, Miriam já tinha uma casa alugada em Pacaraima, pois a situação no país vizinho já estava ficando mais crítica e o projeto acabou migrando para o lado brasileiro da fronteira. Segundo ela, à medida que foram dando mais atenção aos imigrantes, o diálogo com o poder público começou a ficar complicado.

“O poder público municipal daqui, que sempre foi visivelmente contra a imigração, começou a criar essa dificuldade de relacionamento. Um dia fomos abrir o espaço que a gente utilizava, que era cedido para atendermos as crianças, e a porta já não tinha mais a chave. Tiraram as nossa coisas e colocaram na garagem da prefeitura, sumiram instrumentos, sem nenhuma satisfação. Isso em julho de 2016. Isso foi o primeiro sinal de que quem estivesse do lado dos imigrantes não estaria ao lado do poder público. Eu entendi muito bem isso. E aí, essa casa passou a ser um centro de acolhimento”, conta.

Veja aqui Esperança, incerteza, xenofobia e acolhimento: a fronteira Brasil-Venezuela, um relato sobre o que observei na porta de entrada dos imigrantes venezuelanos no Brasil

Miriam lembra que no começo somente os Warao cruzavam a fronteira, e que ela oferecia o espaço para passarem o dia, fazerem seu artesanato, além de dar comida. Atualmente, com a projeção atingida, a Casa recebe alimentos do Exército e ajuda de agências internacionais, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

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Base da Operação Acolhida, do Exército, Polícia Federal e agências ONU

Pouco a pouco, a maestrina foi percebendo um novo fluxo de pessoas, muitas delas mães desesperadas. Nesse momento, o projeto ganhou um novo significado.

“Comecei a perceber, no centro, crianças que não eram Warao. E, aí, fomos identificar que demanda era essa que o município estava recebendo de tantas crianças falando espanhol. Descobrimos que por trás dessas crianças estavam mães totalmente desestruturadas e desesperadas, atravessando a fronteira porque os filhos não tinham o que comer, e dispostas a tudo, contanto que os filhos não passassem fome. Foi aí que decidimos transformar essa casa Casa da Música.”

“Me coloquei no lugar delas e pensei, como eu gostaria de ser recebida? Poxa, eu gostaria de poder tomar um banho, gostaria de sentar em uma mesa para comer, gostaria de tantas coisas que me tornam uma mulher digna, empoderada e com auto-estima. Então eu posso fazer por elas. E descobrimos muitas coisa em rodas de conversa aqui mesmo, em que as mães vinham com as crianças, oportunidades para que falassem porque atravessavam a fronteira. Começamos a descobrir que elas podiam fazer qualquer coisa, até mesmo prostituição, para garantir o básico aos seus filhos. E aí começamos a incluir pessoas importantes do Ministério Público e antropólogos, que trabalham para que esse tipo de situação caminhe. Depois veio Acnur, também. Nós, e o padre Jesus [que também acolhe muitos imigrantes] acabamos virando uma referência”.

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Mãe amamenta filho nas ruas de Pacaraima. Foto: Jesus Zambrano

CAFETERAS

A partir desse contato com as mulheres, a Casa da Música também tornou-se um local de desenvolvimento social, não só para as crianças, mas para essas mães e outros imigrantes também.

“Nós fizemos uma proposta pra essas mães. E se a gente garantir que seu filho vai ter aquela refeição que tanto te preocupa para o outro dia? E garantir, também, que você possa começar a fazer um trabalho digno, vendendo um café uma arepa [comida típica da Venezuela]? A gente consegue o café, o açúcar, as garrafas.  A gente consegue fazer um fomento de uma economia básica, e você também vai ter a garantia de que seu filho vai ter duas refeições no dia. E a gente conseguiu mudar um pouco essa história.”

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Canarinhos durante almoço na Casa da Música. Foto: Facebook/Associação Canarinhos da Amazônia

As mães cafeteras, como Miriam as chama, são uma cena comum pelas ruas de Pacaraima. Muitos venezuelanos passam o dia vendendo café para fazer uma renda diária. Mas entre essas mães, muitas eram administradoras, contadoras, designers gráficas, fotógrafas, mulheres que tinham uma profissão dentro da Venezuela.  E aí surgiu outro aspecto do projeto da Casa da Música que é a capacitação de pessoas para trabalhar nas agências internacionais que fazem o trabalho humanitário, como o Acnur, a Cruz Vermelha, entre outras.

Eu, inclusive, conheci o projeto da Casa da Música através de Jesus Zambrano, um jovem que teve que largar a faculdade de engenharia civil por falta de dinheiro e que deixou seu emprego e sua casa para vir ao Brasil, totalmente no escuro. Através do contato com o projeto, conseguiu um emprego na Cruz Vermelha. (Conheça a história de Jesus aqui.)

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À esquerda, Jesus Zambrano oferece ajuda em obra na Casa da Música. Foto: Jesus Zambrano

Hoje, a Casa da Música atende 60 crianças e sua carga familiar, como primos, irmãos, e agregados. Lá, recebem almoço e um lanche reforçado à tarde. O Exército fornece, duas vezes por semana, uma boa quantidade de alimentos.

Entre as duas refeições, as crianças recebem educação musical, incluindo cultura brasileira, língua portuguesa, e um reforço para que mantenham sua identidade, o que talvez seja o ponto mais importante, haja visto a confusão que uma migração e a xenofobia em uma país estrangeiro podem causar na cabeça de uma criança.

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Aulas na Casa da Música. Foto: Facebook/Associação Canarinhos da Amazônia

“As atividades com eles vão desde o estudo do português, bastante vocabulário, a cultura e os valores musicais brasileiros, e 50% disso tudo mantendo fielmente o espanhol e a cultura musical venezuelana, para que eles nunca esqueçam”, explica Miriam. “Eles saem dessa condição de rua, passam a integrar um grupo e ganham uma identidade. Com essa identidade podem começar a caminhar; ‘estou em outro país tenho uma identidade. Sou venezuelano, mas estou no Brasil’.”

Neste ano, os Canários venezuelanos fizeram seu primeiro concerto, na base de acolhimento, e estão preparando outro na universidade Federal de Roraima em Boa Vista, durante uma conferência sobre migração.

PANELA DE PRESSÃO

Para Miriam, Pacaraima é uma panela de pressão. Ela sente que a chegada do Exército e dos organismos internacionais ajudaram muito na questão da entrada das pessoas no Brasil. Segundo ela, a situação antes era o caos estabelecido.

Ela lembra com pesar do conflito em agosto, quando um assalto atribuído a um venezuelano em um comércio foi sendo repassado nas redes sociais dos moradores da cidade, culminando num ataque organizado por vários Pacaraimenses aos venezuelanos, que tiveram acampamentos improvisados atacados e pertences queimados enquanto eram expulsos da cidade.

Crianças se perderam dos pais durante algumas horas, muitas pessoas perderam documentação e outros viram tudo o que tinham se transformar em cinzas. O palco da cidade, que ficava praticamente na divisa e que servia de abrigo para várias famílias foi destruído por tratores da cidade.

“Por um lado tem os brasileiros organizando a vida de um povo, mas tem um outro lado, de brasileiros que fomentaram uma barbárie. Eu não podia acreditar que brasileiros estavam fomentando uma barbárie daquelas, em uma manhã. Porque quando você ateia fogo no único lugar onde as pessoas têm para dormir, para acomodar-se, ali estão seus pertences, ali pode ter uma mãe amamentando, alguém dormindo, e você tomado por uma emoção totalmente negativa, que te torna uma pessoa cega. Eu vi bárbaros. Eu não vi aqueles brasileiros hospitaleiros, amáveis, cordais.

E depois identificar que essas mesmas pessoas eram as que atravessavam a fronteira pra fazer negócios em Santa Helena, nossa cidade irmã. Essas mesmas pessoas que desfrutaram da Venezuela, do Caribe de suas praias, e faziam compras desfrutando do comércio livre. Essas mesmas pessoas que desfrutaram tanto desse país, tomadas por um demônio, não no sentido religioso, mas dentro de si mesmo, essa ausência total de equilíbrio e paz, virarem um monstro.

E como se não bastasse, no palco da cidade, onde viviam umas 30 famílias, foram ali e colocaram máquinas que trabalham para o próprio município para destruir. E se você observar bem os vídeos, ali eram carrões, pessoas se comunicando num bom celular, dizendo ‘venezuelano fora!’, ‘vamos tacar fogo em tudo!’ Eu assisti cuidadosamente cada vídeo pra identificar tudo isso que estou falando.

E ver as pessoas que eu conheço, algumas delas parte do programa, sendo dispersadas, uma pra cada lado. Algumas pessoas de perto, das igrejas, vieram pegar essas crianças para abrigá-las e achar o pais. Algumas famílias vieram para cá, uma delas grávida de nove meses, para ganhar o bebê, que nasceu morto.

Nós conseguimos trazer o juiz da comarca, o pessoal do MPF. Eles escutaram as vitimas, as crianças, em uma reunião aqui, mas ainda não sabemos de concreto o que vai acontecer. Quem vai pagar por esses danos? Tem algumas crianças até hoje  que não conseguem dormir direito, vendo aquele fogo tomar conta do mínimo que lhes pertencia. Quem vai pagar por isso? Não precisa ir muito longe. Os vídeos estão aí. As pessoas sabem quem foi.

Agora se eu precisar de um psicólogo, eu preciso ir buscar no setor privado. E essa mãe, que perdeu essa criança? Tenho que ir buscar dentro de um outro mecanismo, que não tenha a ver com o poder público, porque aqui ele foi omisso o tempo todo.

Eles cantaram um coro cantando o hino nacional brasileiro enquanto expulsavam as pessoas, tacando pedras, expulsando pessoas desesperadas, que não sabiam nem o que estava acontecendo.. O que é isso? O que dizer disso tudo? Mas apesar de tudo, vamos continuar construindo esse caminho de paz. É aquele caminho que podemos construir dentro de cada família, cada criança e olhar pra frente.”

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