GENTE VENEZUELANA | Da universidade para as ruas

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Jesus e sua mãe, em Pacaraima. Foto: Adriano Maneo.

JESUS ZAMBRANO, 26, ESTUDANTE DE ENGENHARIA CIVIL

Conheci Jesus no primeiro dia em que cheguei em Pacaraima. Havia conseguido um abrigo na casa de um casal do Mais Médicos que estavam trabalhando na cidade, através de uma amiga que fiz durante minha jornada, e que está trabalhando no Alto Comissariado das Nações Unidas, em Pacaraima, . Como eles estavam viajando, um funcionário da Organização Internacional de Migrações, outra agência da ONU, estava tomando conta da casa e dos cachorros. Jesus estava lá para um jantar. Um casal de dois jovens venezuelanos também estava. Era a despedida deles de Pacaraima.

Fiquei impressionado com suas histórias. Decidiram deixar seu país, rumo à incerteza de vir ao Brasil. Dormiram na rua por pelo menos um mês, passaram muita dificuldade, mas já estão conseguindo se acertar. Hoje, todos os três conseguiram trabalho na Cruz Vermelha, mas houve dias em que não conseguiam mais do que R$ 5, trabalhando com ambulantes. O casal foi embora de Pacaraima no dia seguinte, para trabalhar em Boa Vista. Jesus segue em Pacaraima, mas com planos de terminar a faculdade na capital de Roraima.

A seguir, um pouco de sua história em suas próprias palavras:

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Venezuelanos cozinham nas ruas de Pacaraima. Foto: Jesus Zambrano

“Eu quis sair da Venezuela porque trabalhava muito e não ganhava nada. Eu morava sozinho em Barcelona, onde trabalhava na prefeitura. Para me manter, tive que conseguir outro emprego. Trabalhava mais de 12 horas todo dia, mas não me pagavam quase nada. Então, vim buscar outras oportunidades, um lugar onde o trabalho me sirva para algo.

Estudei engenharia civil numa universidade privada. Fiz quatro dos cinco anos necessários, mas não consegui terminar porque não conseguia pagar. Depois disso, fiz cursos técnicos gratuitos em topografia e desenho gráfico. Aprendi e dei aulas de serigrafia e trabalhei um pouco com isso também. Todo o dinheiro que ganhava lá servia só para comer. Não conseguia comprar mais nada.

Trabalhei por um ou dois meses sem gastar quase nada para poder comprar a passagem, que tinha que comprar com dinheiro vivo, o que era muito difícil de se conseguir. Não tinha, não se conseguia. Eu não guardava nada no banco, porque depois não conseguia sacar. Guardava tudo em casa.

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Nota de 500 bolívares jogada no chão de Pacaraima. Hoje, ela vale em torno de R$ 1. Foto: Adriano Maneo.

Antes de sair juntei mais ou menos R$ 200. Gastei uns R$ 100 com passagem e me sobraram outros R$ 100 quando cheguei aqui,

Foram dois dias para chegar: dois ônibus, um táxi e, entre a alfândega da Venezuela até Pacaraima, vim a pé.

Quando cheguei era noite, e estava tudo fechado. Dormi aqui no centro, na rua, até a manhã seguinte. Arrumei a autorização para permanecer no Brasil e fui vacinado. No momento que cheguei, tinha muita gente vindo de todos os jeitos: a pé, de carro, como desse.

Muita gente dormia na rua. Fiquei dormindo na rua por mais ou menos um mês, sempre no mesmo lugar. Acabamos nos conhecendo todos que estavam por ali e nos cuidávamos. Quando cheguei uma irmã minha já estava aqui, também dormindo na rua.

Para cozinhar, era no fogão de lata com madeira ou carvão. Cada família cozinhava sua própria comida, mas às vezes alguém não tinha e os outros ajudavam. As pessoas se tornaram mais solidárias.

No começo eu trabalhei de vendedor ambulante, vendendo doces que fazíamos, ou café. Eu não conseguia juntar muito dinheiro. Era R$5, 10 por dia. Só o que dava pra comer. Tinha dias que eu não suportava, ficava com vontade de ir embora. Era difícil conseguir trabalho. Ainda estava sem documentação de residência, não conseguia nada.

Teve vezes que a polícia tirou todo mundo do centro, por causa de coisas ruins que outros tinham feito. Tinha gente vendendo droga, tinha prostituição, e aí os comerciantes denunciavam, e a polícia vinha tirar todos os venezuelanos do centro.

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Venezuelanos almoçando do jeito que dá nas ruas de Pacaraima. Fotos: Jesus Zambrano

Nunca me bateram, mas teve um dia que tiraram as pessoas com golpes. Tinha muita criança, também. Nesse dia eu acabei indo para a fundação, e a maestrina disse que iria nos ajuda. Procurou pessoas que pudessem fazer algumas doações, e mandou que procurássemos um lugar pra alugar.

Conheça a Casa da Música, projeto que acolhe imigrantes na fronteira, através da música.

Aí foi outra situação difícil: aluguel para venezuelanos. Para um venezuelano conseguir um aluguel é muito difícil. Sempre dizem que não. Foram dois dias inteiros procurado um lugar para alugar. Minha irmã conhecia uma senhora que vende comida no centro e ela conseguiu um lugar pra gente, porque já nos conhecia do dia-a-dia.

Começamos a ser colaboradores na fundação e a maestrina nos ajudou a pagar o primeiro mês, enquanto nós buscávamos trabalho todo dia. Por meio dela, nos chamaram para fazer um curso na Cruz Vermelha, e lá consegui trabalho.

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A casa da família Zambrano. Foto: Jesus Zambrano

Na Cruz Vermelha ajudo as pessoas que entram a comunicarem-se com os familiares. É um restabelecimento de laços familiares. Ajudamos pessoas que não sabem muito sobre a situação das famílias, quem não tem como se comunicar e quem precisa encontrar familiares de quem não sabem o paradeiro.

A minha mãe está lá na fundação também. Ela é cabelereira tinha um negócio na Venezuela. Meu pai era policial ainda está por lá. Mandamos um dinheiro para ajudá-lo de vez em quando.

Somos cinco irmãos. A minha irmã foi a primeira a chegar aqui. Ela tem 22 anos. Depois chegou outra de 25. Estavam dormindo na rua quando cheguei. Não tínhamos ideia que seria assim, tão difícil. Pensei em voltar porque não imaginei que fosse ficar na rua. Pelo menos por lá eu tinha teto. Os cinco irmãos estão aqui agora. Já somos três trabalhando. Os outros dois tem 19 e 15 anos, e a maestrina está ajudando para que estudem por aqui.

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À esquerda, Jesus auxilia em obra na Casa da Música

Meus planos agora são de ficar por aqui por enquanto. Estou esperando meu pai retirar documentos da minha faculdade para me enviar. Já fui na Federal de Roraima, em Boa Vista, para ver como posso fazer faculdade lá, e acho que vou conseguir. Penso em terminar engenharia, enquanto trabalho.

Depois penso em seguir mais para o sul, mas tudo pode mudar. Agora levo tudo no presente. Nunca se sabe as oportunidades que podem se apresentar. Eu nunca havia pensado em vir para o Brasil, um dia. Nem mesmo para visitar. Por isso eu vejo que na vida do imigrante você pode planejar tudo, mas nunca saberá onde vai estar. Por isso a vida de imigrante é difícil. Hoje posso estar aqui, amanhã podem me dar uma notícia que tenho que ir pra outro lado. A minha irmã por exemplo, está em processo de interiorização e está indo para o Rio Grande do Norte.

A minha ideia de estudar no Brasil é conseguir algo mais estável. Não penso em voltar à Venezuela por agora, não. Se voltar ao que era, iria mas não acho que vou deixar o Brasil.

Eu vim para cá sem passaporte, porque estava muito difícil conseguir passaporte na Venezuela. A minha ideia era ir par ao Peru onde eu teria trabalho e tinha alguns conhecidos, mas precisava de passaporte, então decidi vir ao Brasil. E agora sair do Brasil para ir para outro lugar é como começar outra vez. Aqui já tenho documentação, tenho conhecido boas pessoas que tentam ajudar, então agora penso em ficar por aqui e seguir conhecendo mais gente, conhecer mais o Brasil para conhecer mais pessoas, conhecer a cultura, os lugares turísticos. Quero conhecer mais!”

Confira também Esperança e incertezas, xenofobia e acolhimento: a fronteira Brasil-Venezuela, um relato sobre o que observei nas portas de entrada e saída dos imirantes venezuelanos que vêm ao Brasil.

 

Um comentário em “GENTE VENEZUELANA | Da universidade para as ruas

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  1. que foda, essa coisa de imigração.. a vida não anda facil em nenhum lugar… e poder mover-se para buscar melhores condições ou simplesmente para poder continuar vivendo deveria ser um direito básico…. o incoerente é que as nações ricas (seja pela posição geograficamente, como o brasil para A.S.) falam de liberdade de fluxo de comercio e de capitais mas de pessoas, que de certa forma para eles é capital humano… é um venha nós sem fim.

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