ESPECIAL | GENTE VENEZUELANA | Esperança, incerteza, xenofobia e acolhimento: a fronteira Brasil-Venezuela

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Fran Mendoza, Reina Marcano e seus filhos, na rua principal de Pacaraima. Foto: Adriano Maneo.

A vida dos venezuelanos que atravessam a fronteira brasileira é um misto de esperança e receio, de xenofobia e acolhimento. Ao mesmo tempo em que chegam a um novo país para reconstruir suas vidas, esses migrantes encontram barreiras e dificuldades que jamais imaginaram passar.

Não ter onde dormir, não ter o que comer, ser rejeitado pelo simples fato de ser, estar sempre sob a sombra da desconfiança é muito duro. É nesses momentos, porém, que a solidariedade brota, gerando movimentos de acolhimento e alimentando a esperança nesses imigrantes de encontrar dias melhores.

Os primeiros sinais de que a crise migratória venezuelana começaria a desaguar no Brasil foi em 2014, quando indígenas Warao, começaram a cruzar a fronteira e ocupar as ruas de Pacaraima-RR, cidade com pouco mais de 12 mil habitantes, e porta de entrada de quase todos os venezuelanos que migram para o Brasil devido à crise no país vizinho.

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Jovem venezuelano toma conta dos pertences da família na beira da estrada que liga Pacaraima a Boa Vista. Foto: Adriano Maneo

“No começo eram 30 famílias. Depois, no fim de semana, 100, na outra semana 300, e foi crescendo, crescendo”, conta a maestrina Mirian Blos, que tem um projeto de acolhimento de crianças venezuelanas através de música, na cidade fronteiriça.

“No começo eram só os Warao, mas comecei a perceber, no centro, crianças que não eram Warao. Aí fomos identificar que público era esse, que demanda era essa que o município estava recebendo de tantas crianças falando espanhol. E aí fomos descobrir que por trás dessas crianças estavam mães totalmente desestruturadas e desesperadas atravessando a fronteira porque os filhos não tinham o que comer”, lembra ela.

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Mãe venezuelana amamenta filho nas ruas de Pacaraima. Foto: Jesus Zambrano

Segundo a Polícia Federal, entre 1º de janeiro e 19 de novembro, 158.507 venezuelanos entraram no Brasil por Pacaraima. Também segundo a PF, pela mesma fronteira saíram 41.601 venezuelanos, em 2018.

No entanto, para permanecer no Brasil legalmente por mais de 6 meses, os venezuelanos têm que pedir refúgio ou visto de residência. Essas modalidades de migração têm números muito mais baixos. Ainda segundo a PF, desde 2015, mais de 54 mil venezuelanos entraram com o pedido de refúgio e outros 18,9 mil com o visto de residência.

Entre setembro e outubro, transitei pelos 990 km entre Manaus e Pacaraima, pela BR-174, passando por Presidente Figueiredo-AM, e Boa Vista-RR. Esta é a única estrada que liga Roraima ao resto do país. Nesse caminho, cruzei muitos venezuelanos em Manaus e, antes disso, no ano passado, muitos outros que haviam chegado ao oeste paraense seguindo esse trajeto, passando pela capital amazonense.

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Caminhão do exército passa pela rodovia que liga Boa Vista a Pacaraima, enquanto venezuelanos caminham com suas malas até a rodoviária da cidade fronteiriça. Foto: Adriano Maneo.

Em Presidente Figueiredo, a 128km de Manaus conheci dois venezuelanos que já tinham conseguido seguir para dentro do Brasil por conta própria. Os dois já estão há mais ou menos três anos no Brasil.  Um casou-se com uma brasileira com quem já tem três filhos. Vivem num quartinho com a renda do bolsa família e da venda de alguns artesanatos que ele tem feito. Em Boa Vista lavavam os para-brisas dos carros que paravam nos semáforos. A missão é chegar em São Paulo.

O outro trabalha em uma padaria e toma conta de um espaço em que o Mestre Gato, capoeirista amazonense aluga esses quartos e tem um camping. Ele está se organizando para ir até Santa Catarina, onde diz ter ouvido que a qualidade de vida é muito boa.

Em Boa Vista muita gente está na rua, nos abrigos, nas portas de mercados e farmácias. Nos canteiros gramados em frente à rodoviária da cidade, uma multidão se espalha com barracas, formando um grande assentamento migrante. Muitos venezuelanos, porém, trabalham nos comércios pela cidade. Em geral, são os que chegaram há mais tempo.

O clima em Roraima é tenso. A maior parte da população se incomoda com a presença dos venezuelanos. Há muitas histórias de furtos e assaltos, assim como linchamentos e justiceiros. É raro encontrar quem não generalize casos isolados para a totalidade dos venezuelanos. (Acima, fotos de Jesus Zambrano)

Passei 10 dias em Pacaraima, entendendo um pouco da dinâmica na fronteira, e visitei três vezes Santa Helena de Uairén, do lado venezuelano. Nesse momento, o fluxo já era muito menos intenso do que nos meses anteriores, quando as filas no centro de atendimento da Operação Acolhida ficavam tão grandes que as pessoas tinham que pegar senhas para serem atendidas nos dias seguintes.

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Família se reúne em frente ao centro de atendimento da Operação Acolhida, em Pacaraima

Durante minha estadia na cidade, conversei com muita gente que teve a vida diretamente afetada pela crise migratória venezuelana, seja por ser migrante, seja por morar na cidade por onde chegam essas pessoas ou por trabalhar diretamente com elas.

A cidade de Santa Helena não é um retrato fiel da Venezuela. Situada próxima à fronteira, não sofre muito com desabastecimentos, já que em Pacaraima, a rua principal é completamente tomada por mercados, distribuidoras, farmácias padarias e alguns outros comércios. Diariamente, centenas de venezuelanos fazem compras enormes para levar comida, medicamentos e outros produtos de volta às suas famílias ou comercializá-los em seu país.

Em meio a esse movimento bate-e-volta, muitas pessoas, algumas famílias inteiras, cruzam a fronteira com malas enormes e seguem em direção à rodoviária na beira da estrada que liga a cidade a Boa Vista e ao resto do Brasil. Outras chegam na cidade, com destino à Venezuela.

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Famílias inteiras passam em frente ao centro de atendimento da Operação Acolhida e retornam para a Venezuela

Ainda assim, no lado venezuelano da fronteira, já é possível vislumbrar como está a situação mais para o interior. As pessoas andam com bolos enormes de dinheiro na rua, sem cerimônia, já que não ele vale muita coisa. Os mercados e lojas tem poucos produtos e o câmbio é uma loucura, quase incompreensível. São duas moedas, o bolívar e o soberano, que é basicamente o bolívar sem alguns zeros.

Os produtos têm vários preços. No restaurante onde alguns amigos foram comer pizza, por exemplo, a conta girava em torno de 400 reais, se pagassem em bolívares vivo. Em cartão o valor já era bem mais caro. Se pagassem em notas de reais o preço era 120.

Pelo que os venezuelanos me relataram, isso acontece porque é praticamente impossível sacar dinheiro no banco, que só libera valores muito baixos. E para comprar qualquer coisa no cartão, geralmente cobram 500% ou 600% a mais. Fui comprar umas meias que me custaram R$ 7 em dinheiro vivo. Se eu pagasse em cartão sairia por R$ 37,50.

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A cidade de Santa Helena de Uairén, lado venezuelano da fronteira

Essa dificuldade econômica, em que a inflação come o salário que não alcança para comprar quase nada, o descontentamento com o Governo Maduro, as crises de abastecimento e a fome foram as principais causas que encontrei para a saída dos venezuelanos de seu país.

Muita gente de classe média, empregada e com casa em seu pais decide sair de lá para arriscar a vida no Brasil. Gente que nunca imaginou que um dia dormiria na rua, andava com seus papelões de lá para cá. Estudantes de engenharia vendendo café e doces pelas ruas para ganhar 5 ou 10 reais por dia.

Outra motivação forte que encontrei para a debandada é a falta de atendimento digno às grávidas.

“A minha esposa estava grávida de sete meses, não conseguíamos pagar o kit cirúrgico, não tinha as primeiras vacinas e nem mesmo luvas”, conta Gustavo Gutiérrez, 34.

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A família de Gustavo, em Pacaraima. Foto: Adriano Maneo.

Ele, que chegou ao Brasil no meio de 2017, veio primeiro sozinho para encontrar a mãe que já estava em Pacaraima, para arrumar dinheiro e buscar a esposa grávida e a filha de cinco anos. Só conseguiu trazê-las duas semanas antes da segunda filha nascer, já no Brasil.

Em excelente reportagem do El País Brasil sobre as grávidas venezuelanas que vem ao Brasil, Daniela Souza, coordenadora de vigilância em saúde de Roraima, conta que “hoje, a cada dez partos na maternidade [de Boa Vista, a única de Roraima], quatro são de venezuelanas”. A entrevista é de setembro de 2018.

Nos próximos três dias, o Gente Brasileira vai publicar relatos de venezuelanos explicando porque deixaram seu país, como chegaram, como se viraram e as dificuldades que encontraram no Brasil, além de seus planos futuros. Acompanhe pelo site, pelo Facebook e pelo Instagram e entenda um pouco melhor a vida dos nossos irmãos venezuelanos e a realidade na fronteira.

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Nota de 500 bolívares encontrada na beira da estrada em Pacaraima. Atualmente vale por volta de R$ 1. Foto: Adriano Maneo

PS: Muitas das fotos são de Jesus Zambrano. Essas imagens, devidamente identificadas, mostram um pouco dessa crise pelos olhos de um imigrante que tenta recomeçar no Brasil. A história dele será publicada nesta segunda. Aguarde!

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