Alagados e desbarrancados: a força beradeira no Madeira

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Em fevereiro de 2014, a água começou a subir acima do normal e já cobria o chão de algumas casas construídas sobre palafitas. Na certeza de que não passaria daquilo, os moradores da Vila de Nazaré começaram a construir jiraus, estruturas de madeira elevadas, dentro de casa para caminhar por cima das águas e pra guardar seus pertences no seco, durante a cheia.

Mas, rapidamente, o nível começou a subir mais e mais. Em pouco tempo, a água já atingia a altura das portas e engolia tudo o que não havia sido retirado de dentro. Assim ficou durante todo o mês de março. Foi só em abril que a água começou a baixar.

“Cê num viu aquela marca que tem na parede ali na frente?”, me pergunta Seu Venâncio, morador de Nazaré há 57 anos, um dos mais antigos da comunidade. “Aquilo é a marca da água de 2014. Durante a minha vida eu nunca tinha visto uma enchente que nem aquela”.

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A marca da inundação de 2014 na casa de Seu Venâncio, em Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

A inundação do Rio Madeira destruiu roçados, expulsou gente de casa, aterrou matas, matou animais, mexeu com toda a vida não só da comunidade, mas da região. Foi destruição total; o caos na beira do rio.

“A gente enxergava a água vim subindo. Aqui eu tinha um açaízal que eu tirava tanto açaí. Acabou tudo. O que eu tinha acabou tudo. Laranja, tudinho aquelas minhas plantas acabou”, lamenta Seu Venâncio.

Nazaré é apenas um dos exemplos. A vila ribeirinha é um distrito de Porto Velho-RO, a mais ou menos 200 km da cidade, descendo o Rio Madeira. Foi ali onde passei pouco mais de uma semana, e onde ouvi alguns relatos sobre a catástrofe de 2014. A inundação atingiu uma extensão muito maior. Começou em Porto Velho-RO, engoliu o centro da cidade, e foi descendo o Madeira, até chegar no rio Amazonas, alagando tudo que estivesse em terras mais baixas.

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Casas e comércios abandonados em Nazaré conservam a marca da inundação de 2014. Foto: Adriano Maneo.

“Teve gente que perdeu tudo, colega. Meu tio tinha acabado de montar um guarda-roupa novinho. Quando foi ver, tava só as peças, tudo inundado. Subia rápido demais a água. Outro tio meu deitou na rede, a água ainda tava batendo embaixo do chão. Quando acordou, desceu sem olhar e molhou até o joelho. A gente saia de casa pra levar coisa pra terra firme, quando voltava já tinha subido uns 40 cm. Era um metro da noite pro dia”, conta Romerito, morador de Nazaré há pouco mais de um ano.

Ele se mudou para lá com a família porque na comunidade do Papagaio, onde morava, a situação ficou ainda pior, como conta sua mãe, Dona Nazaré.

“Papagaio era muito lindo, mano. Hoje parece um deserto. A inundação destruiu tudo. Pé de banana, açaizeiro, perdi tudo. Ninguém sabe onde foi parar. Acho que ficou aterrado. Tinha aqueles acaru, acaruzeiro, sabe? É uma árvore que aguenta muita água, é de várzea mesmo. Morreu tudinho. Castanheira! Acabou com um monte daquelas castanheironas. Papagaio ficou muito esquisito. Não tinha como ficar lá”.

A vila de Nazaré ao entardecer. Foto: Adriano Maneo.

Na beira do Madeira, Nazaré surgiu por volta de 60 anos atrás, resquício de um seringal nas várzeas do rio. Vez ou outra, as cheias do inverno -que no norte equivalem ao período chuvoso de cada ano- inundam partes do povoado, mas essas cheias atingem uma altura de mais ou menos 50cm, e ficam num nível abaixo dos trapiches e palafitas. Em 2014, atingiu por volta de 3 m e causou muita destruição.

Pela vila, ainda é possível ver as marcas que a água deixou nas casas, lavando a tinta até a altura das portas, e deixando uma lembrança trágica pra quem passou o sufoco de ver seus planos e projetos irem literalmente por água abaixo.

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As marcas da inundação de 2014 permanecem em várias casas de Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

“A gente varava nossa canoa por aqui, ó, pela janela. A porta não abria nem fechava. Ficou cheio um mês. A gente levou tudo pra terra firme. Dá um trabalho. Por duas semanas foi um socorro danado”, lembra seu Venâncio.

AH, O PROGRESSO!

A construção das monstruosas usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em funcionamento desde 2012 e 2013, respectivamente, é o provável motivo do desastre. Juntas, tem capacidade de gerar 7.318 mw de potência, e custaram R$ 39 bilhões. Estão entre as cinco maiores usinas do Brasil, mas -veja só a ironia- não fornecem eletricidade para Nazaré, nem sequer para Rondônia!

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Linha de transmissão de energia em Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

Em Nazaré, por exemplo, a energia é a biodiesel e bastante instável. Nos dias que fiquei por lá, a força caiu 3 vezes, queimando o freezer da casa da família Mura, que me abrigou, e interrompendo por alguns dias as aulas da escola estadual, que vai do 6º ano ao ensino médio.

Agora, se o problema fosse só falta de energia, até que tava bom. Segundo a Santo Antônio Energia, “a hidrelétrica foi projetada para alcançar a máxima eficiência com o mínimo impacto socioambiental” e sua principal característica “é o aproveitamento da alta vazão do rio Madeira para gerar energia com reservatório reduzido e pequena queda d´água.”

No entanto, os moradores da região tem a certeza de que a inundação de 2014, jamais prevista pelos estudos de impacto oficiais tem relação direta com a construção da usina.

Crianças correm até a beira do Madeira para pegar o barco escolar de volta para casa. Foto: Adriano Maneo.

“Já disseram pra mim assim: ‘rapaz, a usina não faz água'”, lembra seu Venâncio “Ela não faz, mas ela prende”, respondeu ele. “Aí a água não desce. E foi o que aconteceu. Terminou o inverno e a água não desceu. No outro inverno a mesma coisa. No terceiro, a água veio tudo de uma vez. Era muita água que tinha”.

Iremar Antônio, também morador de Nazaré, e educador popular socioambiental do Instituto Madeira Vivo lembra de outro efeito devastador da construção das usinas: o desbarrancamento de várias casas que ficavam perto de morros na beira do rio.

“Eles argumentam que teve pouco impacto por que não é um projeto com necessidade de grandes lagos. Mas o fluxo natural da água foi alterado e ninguém calculou isso. O resultado foi o assoreamento do rio, a erosão nas margens do Madeira e uma série de desbarrancamentos que destruíram muitas casas e muitas famílias”, explica.

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Igreja de Santo Antônio de Pádua, um dos primeiros marcos de Porto Velho, e a usina ao fundo. Foto: Adriano Maneo.

 

Outra consequência da construção da Usina de Santo Antônio foi a destruição da Cachoeira de Santo Antônio, talvez o ponto mais bonito que havia em Porto Velho. Ali a população pescava e, na época da desova diversos peixes migratórios subiam o rio num espetáculo único. Isso já não existe mais. Além disso, o fim da cachoeira foi também uma tragédia para os praticantes da Umbanda que realizavam diversos trabalhos nas águas de Santo Antônio.

“Pra gente foi muito triste. A nossa vida era aquilo ali. A gente passava dias com a nossa família naquela cachoeira”, conta Robson Napoleão mestre, em Porto Velho, de um centro de Umbandaime, o sincretismo do sincretismo brasileiro, que une a Umbanda ao Santo Daime.

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Espaço de oferendas de umbanda em frente à usina de Santo Antônio, onde era antes a cachoeira. Foto: Adriano Maneo.

Para a Santo Antônio Energia, no entanto, “grandes hidrelétricas sempre cativam turistas.” Isso é o que a empresa afirma em um texto em seu site, vangloriando-se por ter auxiliado no turismo da região, engajando-se, principalmente, na revitalização dos resquícios da histórica Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Segundo o site da Santo Antônio Energia, a empresa “já restaurou um galpão, a estação da Madeira-Mamoré e, posteriormente, o conjunto da oficina, girador e rotunda”. Em minha visita ao local, porém, vi um espaço largado, na medida do nosso apreço pela história.

Trens da Madeira-Mamoré, patrimônio histórico do Brasil, largados em Porto Velho.  Fotos: Adriano Maneo.

FRACASSO HISTÓRICO

Do ponto de vista socioambiental, o megacomplexo hidroenergético amazônico é um fracasso. Ou seja, o megacomplexo hidrelétrico amazônico é um fracasso. Uma visão estreita de progresso e a ganância de alguns poucos cria um estranho conceito em que colocar a vida de milhares de pessoas e o equilíbrio ambiental de um ecossistema tão rico em risco é justificável. Os projetos são megalomaníacos e não há engenheiro, pesquisador ou quem quer que seja que possa de fato medir e avaliar os efeitos de um empreendimento dessa proporção na vida das pessoas. No fim das contas, pode ter certeza, a corda acaba estourando do lado mais fraco.

E, à medida que nosso olhar se aproxima daqueles que são diretamente afetados por cada um desses projetos, fica claro que são caminhos sem volta. Não há compensação financeira que pague um modo de vida. Deslocados de suas casas os ribeirinhos perdem suas roças, não podem mais pescar como estavam acostumados, não podem caçar e são privados de seus hábitos e costumes que dão sentido às suas vidas. Suas histórias são apagadas, assim como sua relação com o meio em que viviam. Muitos ficam perdidos, confusos, deprimidos. Esses são, talvez, os efeitos mais perversos e que jamais poderão ser totalmente mensurados.

Abaixo, uma pequena lista de vídeos e docs para entender o impacto da usina na vida dos beradeiros:

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A peixada na casa dos bera é rotina. Foto: Adriano Maneo.

Esses acontecimentos nas águas do norte faz parte da sequência de uma história de opressores e oprimidos . A comunidade ribeirinha é essencialmente formada pela população remanescente e descendente do trabalho nos seringais, na construção da ferrovia Madeira-Mamoré, dos povos indígenas que habitavam a região e que foram escravizados, explorados, violentados. São os negros, os nordestinos, os indígenas, os afroindígenas, os caboclos, que foram e ainda são vistos como obstáculo ao desenvolvimento, a não ser quando servem de mão de obra barata.

Veja também “Beiradeiros, Mundurukus e os seis dias na floresta: autodemarcação e uma aliança improvável”

BERA RESISTE

Entra aí a cultura como gatilho de resistência. Coexistem na região amazônica dois movimentos artístico-culturais que representam os povos das águas. São o movimento beradeiro e o movimento de autoafirmação indígena.

O movimento indígena na região está em um contexto de autoafirmação de vários indivíduos como tal e no resgate das tradições que foram se perdendo ao longo dos anos, fruto de um plano violento de esquecimento forçado e de preconceito que acabou por romper um ciclo de transmissão oral dos conhecimentos tradicionais.

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Interior de casa na comunidade de Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

A professora Márcia Mura está na ponta desse movimento em Nazaré, incentivando a autoafirmação de jovens e adultos através de rodas de conversa e contação de histórias, e do próprio ensino na sala de aula uma história onde os índios brasileiros tenham o merecido protagonismo, além de atividades culturais como a pintura indígena e o artesanato, mostrando como o modo de ser beradeiro é fruto do modo de ser indígena da região e como isso pode e deve ser valorizado, motivo de orgulho e de desenvolvimento da autoestima.

A autoafirmação é um processo que passa por entender a história da formação do Brasil e relaciona-la ao próprio contexto em que esse indivíduo se insere, assimilando como o genocídio de seus antepassados traz efeitos até os dias de hoje. Desta forma, se afirmar indígena é uma forma de resistência e contestação a esse tipo de sociedade que construímos e que segue oprimindo os descendentes daqueles que sempre estiveram por aqui.

E isso se relaciona também ao movimento beradeiros. Os bera (leia-se béra) são os ribeirinhos, o povo que vive no beiradão. Nos centros urbanos, beradeiro era usado como ofensa.

Aldimar “Dinho” Reis é bera de Manicoré-AM, um pouco mais para baixo no Madeira e professor de biologia em Nazaré. Ele conta que em Porto Velho era comum escutar de modo pejorativo: “Tá comendo que nem beradeiro! E essa roupa de beradeiro? Só podia ser beradeiro. Coisa de beradeiro”. Segundo ele, hoje, algumas décadas depois ainda rola o preconceito, mas a intensidade é muito menor. E isso se deve à resistência dos bera, que assumindo sua identidade, valorizando seus costumes e sua cultura, meteram o pé na porta e avisaram pro opressor: sou bera mermo, parceiro.

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Rede embolada na casa de bera, na vila de Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

É a autoafirmação beradeira que se expressa culturalmente, transformando os conhecimentos da floresta, o vocabulário das beiradas, os contos, os cantos e as lendas, em poesia, em música, em arte.

É um movimento periférico, ribeirinho, caboclo, afroindígena e regional. E como não pode deixar de ser, toma posição sobre os temas que interferem na vida do bera. O professor Dinho também é vocalista e compositor da banda de punk rock e hardcore beradeiro Malcriados. De vez em quando me encarava, sério, cara de mau e começava a tocar sua guitarra invisível e a cantar.

“Ei, fuleragem,

A tua usina me alagou,

Porto Velho transbordou

E o teu bolso já encheu”.

Outra banda do movimento beradeiro é o Quilomboclada, nome que mistura quilombo e caboclada, afirmando sua influência afroindígena amazônica. O som da banda bebe muito na fonte do manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi, mas com letras bem regionais. Sai o mais entra a floresta e o beiradão. Som de bera.

OUÇA AQUI Quilomboclada

“Eu me apresento sou negro e caboclo

Afro-indígena daqueles bem loucos
Se você gosta de tudo que é pouco
Eu e você somos apenas o oposto”

“Eu sigo em frente, minha aldeia é diferente
Já quebramos a corrente que você me colocou
Paulo Freire me ensinou
Hoje eu sei a diferença do oprimido e do opressor”

“Eu tô de boa
Eu tô na proa
Se vacilar eu viro essa canoa”

Há muitas outras referências bera como o rock psicodélico do Beradelia, ou o MHF – Movimento Hip-Hop da Floresta, que inclui vários grupos de rap e da cultura hip-hop da região. Em seu manifesto, o movimento se apresenta como “representação cultural, contracultural, social e político […]”, tem como ponto de partida “traduzir em ações o conceito de desenvolvimento sustentável” e leva o ‘hip-hopzônia’ como “conceito norteador de fazer e ser hip-hop da floresta”.

OUÇA AQUI Riberifelia – Comunidade Manoa – MHF

A parentada é ligada no mundo, mas vindo de São Paulo sinto que faltam os espaços através dos quais a voz chegue e a realidade do beiradeiro seja admirada e valorizada por outros cantores do país. A cultura é vetor de luta. Ela aproxima, diminui as distâncias, faz aquele companheiro que tá longe perceber que tem vida com batalhas semelhantes em outro canto do país e do mundo.

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Tanã Mura, bera e indígena, improvisa um remo… Foto: Adriano Maneo.
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… e sai de rolê pelo Lago do Peixe Boi, em Nazaré. Foto: Adriano Maneo.

A resistência à construção do complexo hidroenergetico na Amazônia, que ainda está sendo implementado, sempre de cima pra baixo, poderia ter angariado mais apoio se as manifestações da realidade beiradeira tivessem espaço longe da floresta, nos grandes centros do sul e sudeste, nos litorais e sertões nordestinos, nos cerrados do centro-oeste.

Mas a história não foi escrita desse jeito, e muitos dos megaprojetos de hidrelétricas já estão ou concluídos ou em execução, passando por cima dos protocolos de consulta, convulsionando o meio ambiente e as comunidades tradicionais, criando centros urbanos caóticos, violentos, desordenados, afetando muitas vidas. A missão é tentar construir as pontes pra evitar que esses erros sigam sendo cometidos. A luta segue ✊🏽

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Fotos: Adriano Maneo / Gente Brasileira

 

Um comentário em “Alagados e desbarrancados: a força beradeira no Madeira

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  1. “São os negros, os nordestinos, os indígenas, os afroindígenas, os caboclos, que foram e ainda são vistos como obstáculo ao desenvolvimento, a não ser quando servem de mão de obra barata.”
    Essa frase ficou FODA!

    Curtido por 1 pessoa

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