Mané do Cego e o encontro dos artistas na terra dos mestres poetas

Ceci da Viola (à dir.) e Mané do Cego, na relojoaria do Mané. Foto: Adriano Maneo.

Existe um lugar no sertão do Ceará onde as palavras têm alma. Lá, como grito no susto, as rimas saem da garganta naturalmente, e o repente é tão orgânico que brota da terra, vem como dom, atravessa gerações. Poeta é o pai, o filho, a neta e o avô. São sonetos de história, cordéis aos montes, repentes sem fim; a poesia está em cada esquina.

Na Chapada do Araripe, terra dos Cariri, a cultura popular não só sobrevive, ela reina. Juazeiro do Norte, Crato, Nova Olinda, Potengi, Assaré, Exú e tantas outras que, entre fósseis pré-históricos dos dinossauros brasileiros e as paisagens lindas, lindas, abrigam mestres pifeiros, seleiros, cantores e tocadores; mestres do reisado, da sanfona, da poesia, do repente, do aboio e das mais variadas formas e jeitos de se fazer arte, fruto das dificuldades que a vida impõe, mas que se transforma em poesia e alegria com a criatividade do sujeito sertanejo.

Nos dias que passei por ali, dei as risadas e senti as emoções, que não são só felicidade, mas que se misturam e se fundem nesse canto do nosso país. Fui pra lá com a pretensão de ver cultura e notei quão despretensiosa a arte de fazer arte pode ser.

Por detrás de relógios desmontados e peças miúdas em uma oficina na feira do Assaré, cidadezinha cearense de pouco mais de 20 mil habitantes, se esconde um artista de primeira linha. É músico, cantor, poeta, cordelista, repentista e sorridente. Sorri com leveza. É relojoeiro também. Mas não qualquer relojoeiro.

A qualquer instante, Mané do Cego é capaz de transformar sua pequena oficina no que a cidade reconhece oficialmente como o Encontro dos Artistas. É dos maiores orgulhos que ele tem. É ali que eles, os inúmeros artistas da cidade, se encontram para, logo de manhã, transformar, assim, de repente, palavras em música e poesia.

Mané do Cego cantando com seus relógios. Foto: Adriano Maneo.

Quando chegamos, Camila -minha companheira de amor e viagem nos últimos meses, e maior presente que essa jornada me deu até agora- e eu na oficina de seu Mané, não sabíamos a maravilha que nos esperava. Com o violão que temos usado para tirar alguns trocados nas feiras Brasil adentro em mãos, instigamos bem rápido a artistada presente.

Seu Mané já foi tirando seus cordéis da gaveta e nos presenteando. Fotos pularam de dentro da gaveta. Eram da época em que, ainda gordo, era locutor de rodeios e levava com sua sanfona o pé de serra para Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Fotos das galeras e dos porres, o último deles, segundo o poeta, em 1983.

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Foto antiga de um Mané ainda gordo, na sanfona.  Foto: Adriano Maneo.

Era orgulho da própria trajetória. Orgulho do pai, também poeta e repentista que se mudou para a Paraíba. Foi lá onde Mané nasceu e viveu até os oito anos. Depois foram pro Maranhão, mas não ficaram muito. Lá, o velho ficou cego, e só depois disso é que começou a tocar viola. Tocavam juntos na feira para ganhar a vida do jeito que a cegueira permitia.

Orgulho do filho “braço direito, esquerdo e corpo todo”. Não largou do pai nos mais de dois meses que teve que ficar no hospital quando o coração pifou. Mané agradece e avisa: “é poeta também”.

E orgulho também da neta que, nas horas vagas, trabalha numa loja por perto. O negócio dela, na verdade é poesia também. Seus versos ficam num baú do vô.

Não demorou muito e a música começou. Seu Mané pegou uma das duas violas que aguardavam o grande momento e entregou ao amigo Ceci. Ceci é da Viola e logo mostrou por que.

Mané do Cego e Ceci da Viola cantando repente.  Foto: Adriano Maneo.

Primeiro puxou umas modas antigas de emocionar até os mais amargos, e o volume alto da voz já começava a atrair gente. Depois o repente surgiu Quase como um duelo, Mané e Ceci lançavam as palavras que pescavam na cabeça e as transformavam em rima. Por vezes, as vozes conversavam, exaltando as belezas do sertão, por outras, se chocavam numa verdadeira batalha em que a habilidade -ou melhor, a falta de habilidade- de improvisar do adversário era o alvo principal.

Não tinha dificuldade para eles. Ceci brincava e Mané trabalhava. Enquanto ia atirando seus versos, o filho do cego catava as peças miúdas dos relógios com uma pinça e encaixava minuciosamente nos lugares certos com a maior precisão, reconstruindo as engrenagens que passavam a funcionar com sincronia, assim como o repente que atraía cada vez mais gente.

Foto: Adriano Maneo.

Sem perder o tempo, ia cobrando o pessoal, acertando dívidas e apresentando, sempre com rima, os músicos da cidade que surgiam para apreciar o show e, às vezes, também soltar um verso rápido e um sorriso sincero. O cálculo não é preciso, mas acho que a cada cinco que apareciam por ali, um era sanfoneiro e outro era poeta. Cabe também nas contas um bêbado ou outro que vibrava com as rimas. Como tem artista naquela cidade!

Finalmente, depois de mais de hora de repente incessante, quando o último dos embriagados já avacalhava a sessão pedindo pro violeiro tocar um sertanejo universitário, a despedida se fez necessária e conheci mais uma música obrigatória do cancioneiro nordestino:

Coqueiro da Bahia quero ver meu bem agora
Quer ir mais eu vamos, quer ir mais eu umbora
Coqueiro da Bahia quero ver meu bem agora
Quer ir mais eu vamos, quer ir mais eu umbora

Senhora observa o Encontro dos Artistas, na Feira do Assaré. Foto: Adriano Maneo.
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