Da paralisia agonizante de Seu Sirilo à resistência no maior quilombo do país

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A agonia da paralisia: quer mexer mas não consegue, quer trabalhar mas não pode, 11 filhos crescendo e precisando do pai, mas não tem força nem mesmo pra trocar a própria roupa, quanto mais pra olhar esse tanto de criança. Mas dá um jeito, se reinventa e segue um novo caminho.

Quem vê Seu Sirilo hoje, no alto de seus 64 anos, não imagina que ele teve que passar por essa provação antes de se tornar liderança da maior comunidade quilombola do país. Comunidade Kalunga, preciosidade encravada no interior do interior do Goiás.

Lugar escondido, acesso complicado. Não por acaso. Imagina a situação. Ser retirado à força do seu lugar, acorrentado, queimado a ferro e fogo e subjugado na barbárie escravocrata, garimpo torturante, condições subumanas.

Sistema em que não se vislumbra possibilidade nem mesmo de revolução, faz o que? Foge, moço. Foge e se esconde, pra nunca mais viver daquele jeito. A comunidade se formou assim. Gente fugida, gente sofrida; um refúgio da pele preta contestadora.

 

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Criançada reunida pra um mergulho no riacho

Uma comunidade que se organiza essencialmente na solidariedade do parentesco e tem como atividade principal a agricultura familiar, além do turismo que floresceu nos últimos anos, por causa das cachoeiras de outro mundo que se escondem por ali.

Sociedade quase autossuficiente e respeitadora do meio ambiente que se adaptou àquele pedaço de cerrado e se tornou ator importante para sua preservação.

No Engenho II, um dos 20 povoados da comunidade são oitocentos e tantos moradores, e a impressão é que quase todo mundo é da mesma família. É só perguntar por alguém e já vem um “irmão de minha avó”, ou um “uai, a gente é primo de carne”.

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Leopoldo, 88, ou Seu Lió, como é chamado, na sala de sua casa

Leopoldo, um senhor de 88 anos, ou Seu Lió, como é chamado, explica: “tirando uns que vem de fora pra casar, aqui é quase tudo parente”.

A concepção de propriedade da terra é estranha para quem está habituado com o egoísmo da propriedade privada.

“A terra não é dividida aqui”, explica Seu Sirilo.

Ali o território é coletivo, quase uma comuna. É terra passada entre gerações, terra cedida pela comunidade a cada família ou indivíduo, que ganha o direito de utilização daquele espaço ancestral.

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Esse aspecto da organização social da comunidade é uma das heranças evidentes do quilombo, mas anos depois, séculos depois, muitas dúvidas ainda permanecem. E sinto que isso não decorre pela falta de preocupação com registros.

Os griôs, a tradição oral, as bibliotecas humanas, tudo isso é muito forte e fica muito claro ao se observar o trato respeitoso dos mais jovens com os mais velhos. É pedido de bênção em todo lugar, a toda hora.

Mas existir ali exigia permanecer nas sombras. Muito não se dizia (e ainda não se diz). Ou preferia não se dizer.

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As mulheres da comunidade durante uma reunião no barracão

Na minha insistência, por vezes incômoda, em saber mais, fui avisado por uma, senhora da comunidade: “essas histórias são pesadas, menino. Dói. Tem vezes que a gente nem quer falar sobre isso”.

Tapa na cara, de surpresa, certeiro, bom pra chacoalhar a cabeça e reorganizar os pensamentos.

SIRILO É KALUNGA

Depois de passar quatro dias e quatro noites no Engenho II, fico com a sensação de que contar a história de uma pessoa só não faz jus aos séculos de história dessa gente. Mas não dá pra falar de Kalunga sem falar de Sirilo, e não dá pra falar de Sirilo sem falar de Kalunga.

Pessoal costuma dizer que tem mal que vem pra bem né. Fiquei doente, paralítico por três anos, com criançada tudo pequena. Era muito menino, o maiorzinho tinha 14 anos e num conseguia fazer muita coisa. Tinha dia que eu chorava com minha situação, eu, que sempre gostei da roça toda minha vida, num podia trabalhar. Ainda tinha que comprar remédio para tratar, ficar viajando pra Brasília pra fazer consulta. Ainda bem que eu sempre fui prevenido quando trabalhei, e segurei um pouco pra comprar as coisas, né. Hérnia de disco e reumatismo: fiquei três anos paralisado. Minha mulher tinha que vestir a roupa em mim. E aí eu pedi pra melhorar, e que depois que eu melhorasse que eu recebesse uma luz pra trazer um progresso pra minha comunidade. Ainda, às vezes, fico meio ruinzinho, mas não dou trabalho pra ninguém mais. Esse pedido meu foi ouvido, pra me dar um encaminhamento pra ajudar minha comunidade a melhorar. Aí foi quando surgiu a demarcação, e o reconhecimento do sítio histórico, que já estava em andamento”.

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Sirilo limpando peixe pra servir no seu restaurante

DISTÂNCIAS, LOMBO E SOLA

O território tradicional dos Kalunga se estende por cerca de 270 mil hectares em três cidades goianas: Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre, grande parte na região da Chapada dos Veadeiros.

Nos quatro curtos dias que passei na comunidade, eu era a única pessoa de fora. Sirilo me arrumou um espaço onde acampar, debaixo do barracão onde acontecem as reuniões do povoado, e comida também não foi problema. Foram algumas refeições, na generosidade mesmo. Frango, arroz, chuchu, abobrinha, jiló, delícia amarga injustiçada. É como eu tenho percebido e venho repetindo: quem não tem dá, quem já tem toma.

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Seu Zé Preto no lombo do Brinquedo, seu burro

Antes de ir pro Engenho, me falaram que se um Kalunga disser que um lugar não é muito distante, pode ter certeza que o caminho é longo. Entre as comunidades, ainda há trechos que é difícil passar de carro. Até pouco tempo atrás, grande parte das distâncias eram percorridas na sola do pé ou no lombo do burro.

Marcos, um dos moradores que conheci me disse que eram comuns as travessias a pé entre comunidades. Entre o povoado do Vão do Moleque e o Engenho, por exemplo, a distância gira em algo entre 30 e 40 km.

“Tinha que sair às 6h de lá pra chegar aqui meio dia, uma da tarde. E no passo ligeiro”.

Sirilo também se lembra, sem muita nostalgia, das distâncias na sola. No seu caso, na sola não é modo de dizer. Quando jovem, sequer saía da comunidade. Só foi conhecer outros ares com 16 anos.

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Sirilo, peito aberto e cabeça erguida, em sua caminhada habitual pelo povoado

“Transporte melhorou bastante. Que naquele tempo a gente vivia isolado, tudo que tinha que fazer era a pé ou a cavalo. Cavalcante mesmo eu ia era a pé. A gente passou a conhecer outros lugares também porque a gente teve a oportunidade de tá viajando. Eu mesmo só fui conhecer Cavalcante com 16 anos de idade. Nunca tinha saído daqui. Fui descalço ainda  a primeira vez que fui lá: 27 km daqui lá, descalço, roupinha rasgada. Naquele tempo roupa era difícil. A gente fazia tudo aqui. Roupa pra vestir, pra embrulhar, rede, as casas tudo com material daqui mesmo, taipa de palha e madeira. As coisas começaram a chegar aqui num faz muito tempo não”.

O turismo tem se intensificado nos últimos 15 anos, trazendo alguns frutos perceptíveis para a comunidade que conseguiu uma forma de gerar renda.

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Lucélia, na recepção do Centro de Atendimento ao Turista; abaixo, a escola do povoado

Hoje, a escola que até pouco tempo atrás só ia até o quarto ano do primário, tem o ciclo completo, até o ensino médio. Na saúde, uma unidade de atendimento facilita o tratamento de complicações de menor gravidade.

QUENTO, MAS NUM SENTO; SENTO, MAS NUM DURMO

A origem do nome Kalunga é controversa. As referências apontam para uma determinada planta utilizada para tratar da malária ou o lugar onde essa planta nasce, mas também​ há quem diga que a palavra tem relação com o oceano, travessia cruel pra chegar na terra nova. Uma terceira interpretação se refere ao mundo habitado pelos ancestrais. Era dali onde brotava a força da resistência contra a escravidão.

A data de origem do quilombo tampouco é exata, mas pelos relatos diversos cheguei à conclusão que é algo em torno de 350 anos atrás. Sirilo me contou um pouco do drama dos que fugiam. De acordo com ele, na época a região era mais fria e os capitães do mato se aproveitavam disso.

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Trabalhador Kalunga facilitando o acesso a uma cachoeira

“O pessoal fugia e num usava nada de roupa pra proteger do frio né. Aí os caçador dos fugitivo fazia o seguinte, acendia um fogo, e o pessoal fugido ia chegando pra perto pra esquentar um pouco, chegando devagarzinho, com medo de ter alguém, porque cê sabe né, onde tem fogo tem gente. E os capitão na moita, esperando, pronto pra amarrar. Aí o fugitivo olhava prum lado, olhava pro outro e num via ninguém. Aí eles fazia o seguinte, ficava em pé e falava, ‘eu quento, mas eu num sento’. Mas cansava de ficar em pé e sentava: ‘eu sento mas eu num durmo’. Aí dai a pouco deitava, e já começava a roncar, quando acordava já tava amarrado. Depois com o tempo foram ficando mais esperto, e não queria saber mais de fogo não. Via fumaça de fogo e passava longe, porque sabia que ali tava os cara né”.

No período que passei ali, fiquei imaginando como se deu o primeiro contato pós abolição, mas ninguém conseguiu me explicar com precisão. A comunidade permaneceu relativamente isolada até o começo dos anos 70.

Muitos me disseram que até pouco tempo atrás, coisa de 40 anos, ainda havia Gente de mais idade, que tinha medo quando alguém de fora se aproximava. Com o lado de fora, a comunicação era pouca, e a desconfiança era muita. Qual seria o momento oportuno para buscar o encontro?

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Seu Emanuel, com seu chapéu e sua bengala

“Até pouco tempo, até quando surgiu o reconhecimento dos direitos quilombola, muitas pessoas ainda ficavam com pé atrás, dizendo que isso era pra voltar a escravidão. Muitos idosos não queriam se identificar como Kalunga não. Os mais velhos falavam que era vir um bom tempo pra pouco tempo. Bom tempo era essa libertação, e pouco tempo era que a escravidão estava se aproximando. Não se identificava, não assinava nada, não aceitava tirar foto de jeito nenhum. Até agora mesmo tem muita gente que não gosta de tirar foto por ai”.

Sirilo me contou também que mesmo tempos depois da abolição a crueldade persistia (e, na real, ainda persiste, né?).

“Tinha gente aqui, que tá naquele cemitério ali, que era marcado no rosto. Era padrinho da mãe do Leopoldo. A mãe do Leopoldo morreu em 2006 com 112 anos de idade. Ele já era de depois da abolição, mas mesmo assim era marcado. Tinha um outro cumpádi aí que também era marcado. Mas isso eu num era nem nascido. Isso é lá entre os anos 1915, pra 1918″.

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Seu Aristides, uma das figuras que conheci no Engenho

DESCONFIANÇA E RESISTÊNCIA

A desconfiança justificada, gerou resistência por parte de muitos Kalunga para aceitar os próprios direitos que, com o reconhecimento do sítio histórico, se tornaram mais claros. Abaixo a polêmica da aposentadoria, na voz de Sirilo:

“Por exemplo, a história da aposentadoria foi um polêmica. Quando surgiu, muita gente não queria de jeito nenhum. Já tava, com 70, 80 anos, mas num aceitava por nada, não queria aposentar por nada. Diziam que esse dinheiro era pra comprar os velhos pra levar pro frigorífico, ou pro zoológico. Outros diziam que esse dinheiro não era de Deus, que enquanto chegasse o fim do mundo ia vim um dinheiro do diabo, dinheiro que não era bom, que tava vendendo a alma pro capeta. E muita gente morreu sem aposentar, e outros custaram muito a cair na real. Até convencer que nariz de porco num era tomada, já tinha perdido muito dinheiro”.

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Fotos tiradas pelas próprias crianças

Apesar do reconhecimento e da demarcação do território já estarem concluídos, grande parte da área ainda não está em posse definitiva da comunidade.

“Ainda tem fazendeiro que ocupa área Kalunga. Ainda não foram indenizados. Enquanto não forem indenizados continuam lá. Mas eles não pode impedir nóis de usar, então a gente usa mesmo assim. Não chegou a ter morte, mas conflito sempre teve. Agora tá bem mais pacífico.

Já teve fazendeiro que até teve vontade de me matar. Teve vez que chegaram a ficar me esperando na estrada da minha roça. Eu num sabia que estavam lá, mas num fui. Se eu tivesse passado tinha morrido. Era peão de fazendeiro que era contra eu.”

Liderança brigadora incomoda. A história da demarcação e a provação de Sirilo se cruzam. Foi no começo da década de 80, pouco depois de sua recuperação, que ele decidiu atender a um convite de um colega para uma reunião do movimento negro em Goiânia. Em uma conversa com um juiz, foi avisado de que os Kalunga tinham o direito de reivindicar as terras que eram de seus antepassados, e levou a questão para a comunidade.

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Presente recebido por Sirilo e exposto em seu restaurante

“Onde fosse do nosso antepassado, onde tinha roça, casa antiga, onde criavam, qualquer vestígio de ocupação seria identificação pra mostrar pro pessoal que vinha fazer a medição da área, né. Cheguei em casa de Goiânia, convoquei uma reunião, contei tudo que foi falado lá, e até que teve gente que foi contra, mas a maioria concordou. Aí o movimento negro de Goiânia falou que, a partir daquele momento, as comunidades precisavam ter uma liderança pra levar e trazer reivindicações dos povos junto aos órgãos de governo. Tinha que se disponibilizar voluntariamente, aí o pessoal votou em mim. Isso foi lá por 1985”.

O primeiro pedaço de terra de posse definitiva da comunidade só chegou em 2014. Antes disso já havia sido reconhecido Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga pelo governo de Goiás, em 1991, e o reconhecimento pela Fundação Palmares, órgão federal, em 2000.

É pouco para quem habita aquela terra por séculos, pra quem é defensor e propagador como poucos da cultura afro-brasileira. Preto no branco, é racismo mesmo. É direito flagrante questionado e violentado por quem desconhece o valor histórico dos povos tradicionais, a importância que a terra tem em sua razão e sentido de viver, assim como a importância da presença daquele povo para a própria terra. É batalha desigual, tentativa de acuar o oprimido, mas que tem efeito inverso e se torna faísca eterna da resistência de quem já aprendeu que viver é isso mesmo: resistir.

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Acima o futebol de fim de tarde; abaixo, Seu Lió em sua casa

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De volta às cores, com as gêmeas indivisíveis
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Grafite no quilombo
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Reunião no barracão da comunidade
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Welton, jovem que foi pra Goiânia, mas preferiu ficar na sua terra

 

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6 comentários em “Da paralisia agonizante de Seu Sirilo à resistência no maior quilombo do país

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  1. Ainda revendo a emoção agradeço a “viagem” e o prazer da impressão na alma das fotos belíssimas em branco e preto e dos fatos” preto no branco”

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