O rebite, a responsa irresponsável e a travessia sobrehumana de um caminhoneiro

 

DSC_0032

Dos 34 anos de vida, mais de 14 foram na estrada. Prazos apertados, noites viradas, destinos distantes, tudo na paciência, porque a carga geralmente excede o limite de peso. Pra não estourar o caminhão tem que ir na manha. Já perdeu a conta de quantos estados atravessou e tem um saldo de dois acidentes. Um deles desafiou o significado de fatal. Não era pra ser. Sobreviveu.

“Rapaz, tá doido. Se eu tô hoje aqui, é porque Deus falou que aquela não era a hora mesmo. Bati de frente com outro caminhão. Eu a 70km/h, ele a 90. E, pode acreditar, eu só me salvei porque tava sem cinto. Aí onde você tá não tinha poltrona, era uma cama grande, e quando foi bater eu me joguei pro lado. Na carreta eu tava carregando umas barra de ferro, passou tudo por cima de mim, furou tudo, atravessou o parabrisas. Minha perna teve uma fratura exposta, abri minha cabeça, ponto em tudo quanto é lugar. Mas se eu tivesse de cinto eu tinha morrido todo furado.

E a coisa mais doida foi que eu tinha acabado de sair de um posto. Quando fui entrar na estrada, um carro com uma família reduziu e me deixou entrar na frente. Quando que isso acontece, doido? Era o pai, a mãe e a filhinha. Se eles tivessem passado, tinha sido eles”.

Vida de caminhoneiro é dureza. Nas últimas semanas ouvi histórias de acidentes, de saudades, de trajetos longos e lugares distantes. Aprendi as malandragens pra rodar com peso acima do permitido e as técnicas arriscadas pra virar noites guiando.

DSC_0026
Waldomiro, um dos caminhoneiros que conheci nas paradas

 

Foram três caronas e mais de 1000 km percorridos. Esperas persistentes em postos de gasolina, papo com frentistas e até jantar grátis na cozinha de um caminhão.

Vou ter que usar um nome fictício para o capixaba que me deu a carona mais longa das três que peguei. Muita ilegalidade pra dizer o nome. Foram duas noites e dois dias, de Cascavel, no Paraná, até BH.

Guilherme: foi ele quem sobreviveu ao acidente ‘fatal’. Entre os amigos de estrada, já foram dois que não tiveram a mesma sorte.

Nesse universo de prazos, não tem como todo mundo sair ileso. Entre as noites viradas e as horas seguidas no volante muitos cedem ao cansaço. E pra minimizar a leseira, tem um outro tanto que coloca coisa pra dentro do corpo e da cabeça pra segurar a onda. Um dos amigos perdidos pelo Guilherme era do time da coca.

“Eu sempre falei que essa vida não era pra ele. Era muito doido, cheirava muito, gostava de correr. Só fui saber 15 dias depois. Rapaz, chorei demais, foi um choque”.

dsc_0044.jpg
Guilherme em algum momento das horas e horas de viagem

REBITANDO

O Guilherme é casado há 16 anos, desde os 18, e só foi ter filho com 28. Filho não; filhas. São 3. Diz que tudo mudou pra ele quando elas nasceram.

“Já dirigi, assim, quase dormindo, pescando mesmo. É perigoso demais, rapaz. Hoje em dia eu penso nelas, na minha esposa. Se eu sinto que tô com muito sono, paro e durmo”.

Não sei se ele diz isso para limpar a própria consciência, ou se é para aceitar a perversidade do sistema em que ele opera. Digo isso porque, no decorrer do percurso, vi que a realidade dele é muito diferente da que projeta.

O trajeto dele seria de três noites praticamente sem dormir para conseguir entregar 46 toneladas de feijão dentro do prazo. Saiu de Cascavel e foi até Colatina, no Espírito Santo; quase 2.000 km. Um serviço humanamente impossível de se fazer em condições seguras.

Pelo que contei, no trajeto em que eu estava presente foram duas noites e dois dias e 43 horas de viagem com no máximo umas cinco horas de um sono todo desregulado.

Uma das paradas rápidas pra tirar uma soneca

E essas poucas horas já foram muitas. A proporção ainda iria diminuir bastante porque depois de me deixar em Belo Horizonte, ele ainda viraria a noite seguinte pra chegar de manhã em Colatina, umas 12 horas depois.

Pra conseguir realizar o impossível, o combustível mais importante era o rebite. O da vez era uma cápsula azul e branca, cloridrato de sibutramina monoidratado. Era o que tinha, porque, segundo ele, o bom mesmo é um comprimido todo branquinho chamado Nobese.

Preferi não aceitar o mistério, procurei as bulas dos remédios no Google e li pra ele. Os dois são muito similares: anfetaminas pra tratar obesidade. Controlam o apetite, reduzem o consumo de energia e causam insônia. Oferecem a sensação de estar ligado.

Em letras grandes, a bula avisa que “durante o tratamento, o paciente não deve dirigir veículos ou operar máquinas, pois sua habilidade e atenção podem estar prejudicadas”. Ele escuta aquilo e diz:

“Pois é, rapaz, depois quando acaba o efeito, parece que você fica meio bobão, a cabeca fica meio devagar mesmo, sabe?”

No telefone a esposa chama, e entre os “te amo” e “tô com saudade” ele avisa:

“Tá tranquilo, amor. Quando eu chegar em BH vou pegar mais rebite”.

Cloridrato de sibutramina e Nobese,  os rebites usados por Guilherme

E eu, vendo a expressão cansada e os olhos baixos, pergunto se a mulher não fica com medo dele ficar dirigindo à noite, virado, ‘rebitando’, como costumam dizer.

“Rapaz, num fica, não. Não tem o que fazer. Ela acha até bom, sabe que é melhor rebitando do que sem”.

RESPONSA IRRESPONSÁVEL

A preferência era rodar à noite porque a carga que o Guilherme tinha que entregar estava 11 toneladas acima do limite para a carreta usada. Precisava escapar das balanças abertas e também do calor que esquenta demais o motor e os pneus do caminhão.

Além do excedente de peso e dos rebites, Guilherme rodava com o RNTRC, um registro nacional dos transportes de carga, vencido há poucos dias. Não podia ser parado de jeito nenhum. E como tinha uma balanca federal, onde a fiscalização é mais rigorosa, no nosso caminho, ele precisava passar por lá antes da manhã de segunda-feira, quando voltavam a trabalhar. Tocou o pé e trocou as horas de sono por quilômetros rodados.

Um dos muitos acidentes por que passamos no caminho

Metade irresponsável, metade responsável: mesmo cansado, tava tentando cumprir a missão que passaram pra ele.

Me contou que certa vez foi parado por um policial e tomou um esculacho por estar rodando com algumas toneladas acima do permitido. Entre os muitos xingamentos que recebeu, disse que se indignou justamente quando foi chamado de irresponsável.

“Que irresponsável o que, rapaz?! Sou empregado igual você. Só estou cumprindo as ordens do patrão. Preciso ganhar a vida, tenho três filhas pra criar. Se eu não fizer tem um monte de gente querendo fazer no meu lugar. Não tenho opção, não”.

O cenário é cruel mesmo. Guilherme se vangloria de receber dois salários fixos e ter seguro de saúde. O resto ganha em comissão por carga entregue, geralmente 10% do frete. É aí é que começa a loucura.

DSC_0039
Uma das muitas paradas pra checar se o caminhão estava aguentando o tranco

No fim das contas, uma parcela grande dos caminhoneiros, assim como ele, se vê forçada a fazer um esforço sobrehumano pra conseguir tirar um salário decente. E aí não dá pra se espantar com a normalidade do uso do rebite e da cocaína.

“Rapaz, se eu falar pra você que, de cada dez, três não rebitam, acho que não tô exagerando. E se for contar só os que trabalham virando noite, não tem um que não toma, te garanto. Isso sem falar no pessoal que ainda cheira pra ficar acordado. É muita gente”.

Existe uma lei recente que obriga os caminhoneiros a fazerem exames toxicológicos periodicamente. Pelo que percebi não mudou muita coisa, só abriu um canal a mais de corrupção.

“Rapaz, pra fazer o exame custa R$ 300, mas o camarada lá do lugar cobra R$ 800 e usa o cabelo de outra pessoa. Aí é tranquilo, não acusa nada”.

Em vez de entender a condição e o contexto que incentiva o uso da substância e criar formas de mudar isso, parece mais fácil só proibir e vigiar. É muito simplista. A obrigação maior do Guilherme era entregar a carga naquele prazo determinado e, para isso, o rebite era indispensável. Qual era a outra opção que ele tinha? Precisava usar mesmo. É como ele disse: “melhor com do que sem”. E nisso se cria um nicho de corrupção pra atender a necessidade.

CONFIANÇA NO DEDÃO

Eu cruzei o caminho do Guilherme em Cascavel. Eu tinha saído de Minas para um encontro com minha família em que eu não poderia estar ausente, em Foz do Iguaçu. Mas depois disso, eu buscava seguir pro centroeste e depois norte.Mas em geral as caronas e o destino não obedecem nossos planos. Depois de muitas tentativas, me recomendaram que eu fosse até Cascavel, onde tem um eixo de estradas por onde passam mais caminhões e para mais lugares. Boa sugestão.

Consegui uma carona Foz-Cascavel com um motorista paraguaio. Sem problema; a Gente não era brasileira, mas era boa.

img_20170331_172339074_hdr-2 copy.jpg

Carlos, jovem, só 24 anos, caminhoneiro desde os 18, feliz demais em entrar no Brasil pela segunda vez. Me garantiu que passaria em Cascavel e fez questão de colocar música brasileira pra me agradar. Não conseguiu pela música, que não era muito a minha praia, mas agradou pela intenção.

Depois de umas três horas, me deixou à noite em frente a uma churrascaria no meio da estrada que cortava a cidade, e tive que acampar ali mesmo. Só na noite seguinte consegui a carona com o Guilherme.

Nesse meio tempo, passei outro dia inteiro no posto, sempre pedindo carona para algum lugar mais ao norte. Em todos esses postos que servem de base para os caminhoneiros existe uma dinâmica parecida. Os frentistas, os mecânicos e borracheiros, os funcionários das transportadoras que organizam a logística e oferecem cargas para serem levadas, os caminhoneiros, os viajantes em busca de carona e as prostitutas que aparecem à noite para amenizar a solidão alheia.

DSC_0020
Thiago e Daniel, dois dos vários frentistas que cruzei

Era sábado, quase todas as transportadoras fechadas e o cenário desanimador. Geleia, funcionário de uma das poucas que estavam abertas, me explicou que, além de ser fim de semana, o preço da soja tinha baixado e diminuído o movimento, porque os produtores não desovam seus grãos, confirmando o que os frentistas tinham me falado.

Nesse dia de espera fiz amizade com outros três caminhoneiros que aguardavam aparecer  alguma carga pra transportar. Rogério, Warley e Waldomiro, todos paulistas, que também não se conheciam até então. Rola um espírito de comunidade entre a classe nesses postos de parada.

dsc_0022 copy.jpg
Rogério, Waldomiro e Warley

Rogério me chamou pra um jantar que ele estava fazendo do lado de fora do caminhão. A cozinha era pequena, mas o rango foi farto. Arroz, feijão com muita linguiça, ovo frito, e cuscuz.

Durante o banquete, reclamou da dificuldade da vida corrida e dos esforços sobrehumanos e me explicou que o bom é dirigir caminhão de produto químico.

Pela periculosidade do material, a fiscalização é rigorosa, e os custos de um acidente pra empresa é alto. Se uma carreta tomba e derrama o produto, toda a área do acidente tem que ser escavada por causa da contaminação do solo, o asfalto tem que ser refeito, e rolam multas caras, fora a possibilidade de responder por crime ambiental. Com essa possibilidade, existe todo um sistema para impedir o motorista de rodar mais que oito horas por dia.

DSC_0034

DSC_0031
A preparação do jantar por Rogério

“Bicho, pra gente que é autônomo, é duro demais. É direto que eu rodo 15 horas por dia. E aí o corpo fica todo quebrado também. A classe dos motoristas é a mais sedentária que tem. Tem dia que eu não aguento minhas costas. A gente têm que rodar horas e horas. Que exercício que eu vou conseguir fazer? Quando tem uma parada eu quero é descansar meu corpo”.

A analogia faz sentido, mas tenho que discordar do Rogério.

Acordar no desconhecido, sentir o sol nascer, ver a neblina encobrir, sentir o mato cheirar e a água correr;

Ver gente sofrida sorrindo, ouvir gente com fome pedindo, flagrar gente com muito fugindo;

É foda aprender que, muitas vezes, quem não tem dá, quem já tem toma, e isso emociona;

Mas aí vem o gesto sincero de onde não se espera, o abraço de graça no meio do caos, as portas abertas sem exigir recompensa, a amizade trazida meio que na surpresa;

E pra sentir de verdade é só fora da gaiola mesmo;

Não é câncer porque câncer te consome por dentro. É vida porque, em vez de consumir, expande;

E no fundo, eu sei que o Rogério sabe que “viver é muito perigoso”, mas que a Gente quer mesmo é viver.

DSC_0037
Warley, uma das amizades pela estrada

3 comentários em “O rebite, a responsa irresponsável e a travessia sobrehumana de um caminhoneiro

Adicione o seu

  1. Gente lavando roupa
    amassando pão
    Gente pobre arrancando a vida
    com a mão
    No coração da mata gente quer
    prosseguir
    Quer durar, quer crescer,
    gente quer luzir
    Rodrigo, Roberto, Caetano,
    Moreno, Francisco,
    Gilberto, João
    Gente é pra brilhar,
    não pra morrer de fome
    Gente deste planeta do céu
    de anil
    Gente, não entendo gente nada
    nos viu
    Gente espelho de estrelas,
    reflexo do esplendor
    Se as estrelas são tantas…palavras sábias do Caetano. Lembrei da musica ao ler.
    Adorei a história. Aguardando as que estão por vir.

    Curtir

  2. Oi Dri
    Hoje domingão chuvoso me deu vontade de reler só pra voltar a me emocionar.
    Que linda história está fazendo pra si contando história de tantos

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: