Os sonhos, a beleza do sofrimento e a complexa sabedoria de Cida

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Ouvi falar, um dia desses, sobre a lenda de Wotan, um jovem deus nórdico, que em suas andanças pelo mundo se deparou com a árvore da vida, responsável pelo equilíbrio de todo o planeta. Sob suas raízes milenares nascia a Fonte do Saber, e maravilhado com os poderes que a árvore oferecia, Wotan pediu permissão para beber a água da fonte ao guardião Mimir. Ofereceu um dos seus olhos como pagamento e tomou um gole.

Mas Wotan não se deu por satisfeito. Decidiu cortar um pedaço da árvore pra fazer uma lança, e nela entalhou as regras da vida. Com elas sob seu controle poderia dominar o mundo. No entanto, a árvore ferida pegou fogo e as chamas acabaram consumindo toda a vida na terra.

Praticamente extinto, o mundo foi inundado por uma chuva que terminou com o que restava. Homens, anões, gigantes e até mesmo os deuses foram engolidos pela revolta. Terminada a inundação, pouco a pouco o mundo ressurgiu. Os seres humanos, porém, não tiveram chance e desapareceram.

EU SOU O MATO

Conheci Cida em Milho Verde, uma vilinha com uma energia toda especial no alto da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Em Diamantina, ouvi muito falar de lá, mas quando cruzei Beth, Ricardo e Isadora, família de gente boa que conheci numa carona rumo a Cachoeira da Sentinela, e me contaram que lá morava essa mulher iluminada, percebi que o destino estava querendo coloca-la em meu caminho. Uns dois ou três dias depois da sugestão, fui atrás pra descobrir quem era essa pessoa que vive à frente de nosso tempo e certezas.

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As ervas e frutos do quintal da Cida

Na casa da Cida, o que eram para ser dois ou três dias viraram sete. Foi uma semana intensa de lições sobre a vida, a morte, o dia, a noite, o real, o espiritual, os sonhos, as plantas, os pássaros, as águas e a essência de nossa existência. Uma amostra de como não precisamos de muito pra viver em plenitude e daquilo que realmente necessitamos para atingir a felicidade. Uma aula sem pretensão de ser.

Certa noite, fazíamos uma fogueira em frente a uma cachoeira, quando perdi ela de vista. Achei que tinha se embrenhado no mato, como gosta de fazer, mas logo notei que ela estava logo ali, no escuro, admirando o fogo encostada numa árvore.

“Ô, Cida, já tava achando que você tinha se enfiado nesse mato aí”. E ela responde:

“Eu sou o mato!”

Faz sentido. A Cida entende seu tamanho frente à grandeza da natureza e sabe qual o papel que deve cumprir nesse sistema. Distante da arrogância da sociedade que construímos, para ela é muito claro que o planeta não precisa da gente, nós e que precisamos dele. E com esse conhecimento, ela é, de fato, o mato, faz parte dele, ali ela é invisível.

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Cida na Cachoeira do Tempo Perdido

A casa da Cida fica bem no meio de uma agroflorestinha toda plantada pela própria. Casa simples e aconchegante: uma varanda, fogão a lenha dois quartos dentro e um outro fora para receber gente, turistas geralmente. Na floresta, no quintal, frutas, verduras, legumes, temperos e ervas de todos os tipos. Sabe exatamente onde está cada uma e conhece todas suas propriedades, como usá-las e como corpo e mente reagem. A sabedoria é toda na base do tempo e do auto-teste. É sabedoria mesmo, conectada de verdade, no real sentido da palavra. Vida simples, pessoa complexa.

Ela é uma só, mas diz que sente como se fosse várias. É meio índia, meio bruxa, meio mística e toda sábia.

“Eu sinto, assim, que cada história que eu vivo sou uma pessoa diferente. Parece que eu sou várias pessoas ao mesmo tempo, vários personagens vivendo uma coisa nova”.

A voz carrega um tom de mistério e tudo o que fala instiga.

Quando cheguei na casa, Cida não estava. Quem me recebeu foi Maíra, sua filha mais velha, que estava assando uns pães lindos, atividade principal da família. Divertida igual à mãe, falou que eu tinha cara de Rodrigo. A Cida achou que eu tinha cara de Mateus. E assim virei várias pessoas também, durante minha estadia.

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Cida e Maíra, e São Benedito padroeiro dos cozinheiros

Pouco depois, a Cida chegou. Cara de índia norte americana e um ar enigmático, logo disse que tinha sonhado comigo, um ou dois dias antes.

“Sonhei com um moço de camisa azul, assim de manga curta, sentado aí, me mandando um joia com a mão esquerda. Tô achando que era você, viu”.

Achei plausível. Camisa de manga curta azul tem sido minha roupa principal e mandar joia pras pessoas é um hábito que carrego a muito tempo.

“Eu não estava dormindo, não. Foi uma coisa muito rápida, durou poucos segundos. Você não tinha chegado, mas já estava aqui” completou.

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Preparando os pães

Eu já tinha ouvido falar do poder dos sonhos da Cida. No ano passado, ela participou como figurante de um filme gravado em Milho Verde, e haviam me contado que ela comentou de algumas cenas com o diretor sem nunca ter tido contato com o roteiro. Pelo que ouvi, as visões dela convenceram a equipe a fazer umas mudanças na história por causa de sonhos que ela teve.

Sobre a visão comigo, acabou mudando de opinião uns dias depois, quando mostrei umas fotos do meu falecido pai.

“Sabe aquele sonho que eu tive? Acho que não era você, não. Eu acho que eu vi foi seu pai. Ele veio ver se estava tudo bem antes de você chegar. Ele tá te acompanhando”.

A LUA, AS ESTRELAS E A JORNADA

A noite foi chegando e, da varanda, Maíra viu a lua nascendo por trás da montanha.

“Olha a lua nascendo!”

E correram, as duas, pra um ponto privilegiado onde todo dia admiram o fenômeno que quem vive na correria ignora. Depois me levaram para ver as estrelas da frente da igrejinha da cidade.

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A igrejinha no arraial de Milho

Papo vai, papo vem, risada atrás de risada – porque as duas passam o dia rindo – uma estrela cadente enorme, mais perto do que qualquer outra que eu já tenha visto, rasga o céu na horizontal, de um lado a outro. Deve ter durado uns cinco segundos. Impressionante!

Foi a confirmação de que era exatamente ali que eu deveria estar naquele momento.

Ir de encontro a toda essa sabedoria conectada da Cida e de outras personagens pelo caminho me faz perceber que existem infinitas formas de se viver bem, as possibilidades são infinitas.

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Na paz, na varanda

A BELEZA DO SOFRIMENTO

Cida nasceu em família extremamente pobre em Itamarandiba, também em Minas. Diz que “nem a roupa do corpo tinha”. Era um vestido só, e nem dela era. Subsistiam. Me contou muito sobre a relação ruim com a mãe, de quem estava acostumada, mas nunca conformada, a apanhar. Diz que percebia um espírito sádico, e respondia não deixando a dor transparecer.

Em muitas conversas que tive com pessoas de origem mais simples, em Minas, percebi que o ‘coro’ com requintes sádicos era algo absolutamente comum na vida das crianças. Murilão, também morador de Milho Verde, me contou sobre os coros diários de seu pai militar, e o prazer que via em cada risada que ele dava durante a surra.

Voltando à Cida, a raiva a fez fugir de casa aos 12. Foi pra casa da tia, em Capelinha, cidade próxima de Itamarandiba. Ainda criança, começou a trabalhar “em casa dos outros” e quando jovem decidiu ir viajar, até parar em Milho Verde, mais de 30 anos atrás, quando a estrutura praticamente inexistia no povoado. Apesar da raiva e da relação ruim com a família, me revelou que é agradecida por tudo que aconteceu em sua infância.

“Apesar de todo esse sofrimento, no fim eu acho que aquilo foi bom pra mim, sabia? Senão eu estaria até agora lá no mesmo lugar, não teria essa independência que eu tenho até hoje”.

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Pensativa, na Cachoeira do Tempo Perdido

Ela tem razão. Cada vez mais tenho compreendido que o bem e o mal são dois lados da mesma moeda. A vida é maluca, passageira e cheia de surpresas. Os momentos tristes e sofridos são inevitáveis. Só nos resta saber extrair o melhor deles. Pra ela, houve muito sofrimento, mas aquilo gerou uma mudança completa no rumo que a vida dela tomou.

Hoje a Cida é mulher auto-realizada. Ainda tem muitos planos e vontades, quer dar cursos de culinária e sobre plantas medicinais, quer viajar o Brasil e visitar seu filho que faz faculdade em Foz do Iguaçú. Mas nao se afoba; vive em função de sua própria felicidade. Se vira vendendo lanches, pães, doces, bolos, conservas, vinhos e cachaças, tudo feito em casa, mas faz questão de arrumar tempo pra tomar um banho de cachoeira quase todos os dias.

Me levou pra várias ali na região, e percebi como é feliz. Conhece cada pedra e quais são boas pra tirar uma soneca. Gosta de ficar sem roupa quando a solitude permite, e me falou que o bom é entrar debaixo das quedas de olhos fechados.

“Quando eu entro debaixo da cachoeira, eu vou de olho fechado. Vou sentindo as pedras, pegando com as mãos, até achar o melhor lugar. De olho fechado você não sente medo. O que dá medo é o que a gente vê”.

Sabedoria, sabedoria, sabedoria.

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De olhos fechados, sem medo, sentindo as pedras

Passei a semana visitando os lugares mais lindos de Milho com ela. Ela conhece cada canto daquela imensidão de matos e águas e bichos, mas não cansa de ver beleza em cada detalhe. Para, admira uma flor, pega uma planta pra fazer um chá mais tarde, tira uma foto do céu, tira outra, são várias e várias fotos do céu e das flores pelo caminho. Não tem pressa de chegar.

Teve uma vez que cruzamos uma cobra numa trilha. Estava morta, mas era linda, verde esmeralda. Cida ficou encantada, fez questão de tirar várias fotos e me ensinou:

“Quando você encontra uma cobra, você pede pra levar o medo todo embora. Aí você fica sem medo, sem medo de nada mesmo!”

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Cida e a cobra esmeralda

Geralmente, ela faz essas caminhadas à tarde, pega o pôr do sol na cachoeira e volta à noite, sem lanterna. Destemida. Faz tudo isso sozinha.

“Gosto de andar nesses mato tudo à noite. Você começa a escutar os bichos que vão saindo. São outros bichos que saem à noite. São outros sons. No escuro não dá pra ver muito, então o som é mais importante, os ouvidos ficam aguçados, e os bichos conversam entre eles. Ouve só”.

OS PÁSSAROS E SEUS SINAIS

A sensibilidade da Cida faz ela conhecer bem os pássaros. Sabe ler como a simples presença de uma ou outra espécie muda a dinâmica da cidade, ou o humor de uma pessoa. Ela sabe quando eles chegam e quando se vão, os horários em que cada um aparece, quem chega primeiro e quem vai embora tarde, quem se gosta e quem é respeitado na comunidade.

Esses patinhos selvagens e o gavião são os últimos a ir embora. O patinho vai até um pouco mais. Parece que eles voam até lá embaixo e depois vem subindo na beira do rio. Acho que ficam procurando um lugar pra dormir. E o gavião, os outros pássaros tem birra dele, ninguém gosta dele. É solitário e todo sorrateiro, ninguém confia. Fica esperando os outros vacilarem pra atacar os ninhos e roubar os ovos. Por isso que ele fica lá no alto, porque senão dá briga. Todo mundo se junta pra dar um coro nele.

 

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Aula de pássaros na Carijó

E tem também os pássaros que aparecem à noite. A mãe da lua é aterrorizante. Ela canta, ela grita, ela ri e ela chora, tudo em um canto só. Ela causa terror na pessoa que está perto dela. Olha a coã. Ela é muito perigosona. Quando você ouve ela por perto, significa morte, que alguém vai morrer. Já o caburé aparece e fica por dias. A cidade fica toda esquisita, com uma penumbra em cima dela. Todo mundo fica antenado, mas ressabiado. O bichinho ali igual um martelão: ta ta ta ta”.

Me apaixonei por Milho Verde, mas eu precisava seguir viagem e chegar em Belo Horizonte na quinta-feira. As caronas estavam difíceis de achar e a única que eu havia encontrado era na sexta. Não confirmei que eu iria, pois minha intuição sugeria paciência. Aquela carona não estava me agradando, não era um ato solidário. Estavam me cobrando um preço maior do que seria justo, e eu não tava afim de ir.

Na tarde de terça, no caminho pra uma cachoeira perto de casa, comentei a situação e perguntei se ela não estava sabendo de alguma outra carona.

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“Olha, de carona eu num sei, mas é só você desejar muito que essa carona aconteça e acreditar que ela vai acontecer, ficar pensando nisso com força, pode ter certeza que vai rolar”.

Não deu outra. Em menos de dez minutos, cruzamos o caminho de Natália, belo horizontina gente boa, e seu cachorro, o Bartô. Ela voltava pra BH na quinta e não pensou duas vezes pra me oferecer não só a carona, mas também a estadia por lá. Tudo de coração e braços abertos.

Visão de Cida. Nao vou dizer que ela já sabia o que iria acontecer quando disse aquilo. Pode ser, pode não ser, mas tenho visto que nada nesse mundo é por acaso.

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15 comentários em “Os sonhos, a beleza do sofrimento e a complexa sabedoria de Cida

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  1. Linda história, Adriano. Linda personagem. E a vida vai se tecendo nos encontros e trocas. E texto vem do latim tecer, a partir da trama de palavras. Os seus textos estão sendo tecidos no emaranhado de vidas que estão cruzando seu caminho.

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  2. Adriano,adorei as historias que você contou a meu respeito e fiquei impressionada com a sua memoria ,pois tudo que eu te contei você gravou na mente como se tivesse escrito antes, você esta de parabéns !!!Obrigada!!!!!!!

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  3. Adriano, chorei, chorei…você não tem ideia a emoção que tive ao ler seu texto, que como dito por Lu, tece… e ele vai tecendo a vida, a alma e a esperança na humanidade dentro de mim. A sabedoria e a essência dessa linda mulher que não precisa de nada e de ninguém para SER. A gentileza, a generosidade, a sabedoria e a beleza dessas pessoas filtrados pelo seu olhar sensível e aberto tem sido um presente, uma lição de vida, um alento, uma esperança. Obrigada por nos revelar esse país tão lindo e rico povoado por tantas Cidas-fadas-feiticeiras-sábias Brasil adentro.

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  4. Cida, Cida… Provoca encantos a todos que se aproximam . Mulher forte, guerreira, autêntica. Irradia luz em cada movimento, em cada palavra. Gratidão a Deus por permitir conhecer esse ser maravilhoso e sua filha Maíra!💜

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  5. Querido Adriano, obrigado por trazer as boas novas , devires possíveis que nos contagiam, nos ligam nesse tecido, nessa rede, daqueles que querem a harmoniae a paz. Grande beijo

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  6. Na poética de Cida ouvi o Milton a cantar: Itamarandiba (Milton Nascimento)

    (C G) D7 G
    No meio do meu caminho sempre haverá uma pedra

    (Am G) Am Em C D Em
    Plantarei a minha ca…sa numa cidade de pedra

    A4/7 A7 G/D D7 G7M
    Itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida

    Em Bm F#m C D Em
    Como é miúda e quase sem brilho a vida do povo que mora no vale

    (C G) D7 G
    No caminho dessa cidade passarás por Turmalina

    (Am G) Am Em C D Em
    Sonharás com Pedra Azul, viverás em Diamantina

    REFRÃO

    (C G) D7 G
    No caminho dessa cidade as mulheres são morenas

    (Am G) Am Em C D Em
    Os homens serão felizes como se fossem meninos

    Curtido por 1 pessoa

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