A praga do diamante roubado e as verdades incontestáveis de Seu Hélio

 

O enredo é de cinema: uma praga desencadeada pelo roubo de um diamante do tamanho de um ovo, no interior de Minas Gerais, foi o motivo da derrocada de um empreendimento grandioso e lucrativo, encrustado numa paisagem distante, selvagem e paradisíaca. A vítima do roubo foi Antonio Luis Belaguarda; apelido, Antonio Cafundó. O nome exato do autor da injustiça é desconhecido, mas sabe-se que teve dificuldades para vender a pedra em terras estrangeiras. O diamante causou suspeita até em Londres, veja só. Desconfiava-se que a joia rara teria sido roubada do tesouro de Diamantina – e existe cidade com nome mais adequado para uma história dessas?

Quem ouve os contos de Seu Hélio se sente assim, atraído como se assistisse a um clássico do cinema. A grande diferença é que uma história vem colada na outra, e você não percebe onde uma começa e a outra termina. As personagens têm que ter nome, sobrenome e, em geral, um apelido elaborado. As datas, quando aparecem, também vêm bem certas: dia, mês e ano, sempre.

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Essa história da praga do diamante, por exemplo, surgiu de repente, sem mais nem menos, quando ele contava como havia conhecido a esposa Mariana, com quem, após 68 anos de casado teve 10 filhos, 20 netos e 22 bisnetos. O encontro foi na Vila do Biribiri, um povoadinho a 18 km de Diamantina (MG), que de tão lindo mais parece um cenário – acho que nem o destino poderia evitar que o casamento de Seu Hélio começasse num lugar assim.

Um gramado verdinho, verdinho, com uma escolinha e casas azuis e brancas no estilo colonial, árvores floridas e uma igreja tão charmosa que beira a perfeição. Tudo construído no fim do século XIX para abrigar os funcionários de uma indústria têxtil estrategicamente instalada na beira do rio que rodeia o lugar, onde a moça trabalhava.

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A Vila do Biribiri e suas casas brancas e azuis

“Mariana mesmo eu encontrei ela foi no Biribiri. A gente ficava proseando naquela grade na frente da igreja. Eu entreguei ela a aliança ali naquela grade” lembrou Seu Hélio, que logo emendou o conto: “o dono mesmo roubou um diamante enorme que causou suspeita até em Londres. De um moço que tava com fome. Aí o trem acabou. O homem achou ele no córrego do Caeté-Mirim e foi até Diamantina pra vender. E o homem que era dono do Biribiri tinha loja em Diamantina, a única que estava aberta na hora que o outro chegou. O diamante era tão grande, e ele não tinha dinheiro nenhum, que se contentou só com 15 mil réis. Depois o homem foi até buscar a garrucha pra atirar no outro, mas ficou com medo da polícia atirar nele, e deixou o diamante. A maior dificuldade foi de vender ele em Londres porque todo mundo achou que ele tinha sido roubado do tesouro de Diamantina. E o diamante teve que ser provado que foi tirado do córrego de Caeté-Mirim, por, ele tinha apelido de Antonio Cafundó, mas o nome dele legal era Antonio Luis Belaguarda. E falam que acabou o Biribiri por causa disso, foi a praga, pela injustiça que ele fez com Antonio.”

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A igreja do Biribiri e a grade onde Seu Hélio entregou a aliança

A fábrica da Vila do Biribiri encerrou as atividades em 1972 e hoje é ponto turístico, dentro de um parque estadual lindo, com cachoeiras pelo caminho.

Seu Hélio não é de lá. É de São João da Chapada, mesmo vilarejo onde Dona Miúda, personagem da última história do Gente, mora. Foi, inclusive, na casa dela onde me disseram que, se eu quisesse saber as histórias da cidade, deveria procura-lo.


É interessante que são esses lugarejos onde mais tem gente autêntica como os dois. Vai ver é só impressão minha mesmo. Talvez só seja mais fácil encontra-los. O que eu sei é que entre uma lenda e outra, Seu Hélio tem gosto em relembrar os acontecimentos de São João, e o jeito que ele conta, cheio de detalhes inesperados, faz esse gosto passar pra quem ouve também.


Não foi difícil encontrar a casa dele . São 91 anos quase todos vividos ali, e participação em quase todos os eventos marcantes do povoado.

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Seu Hélio na porta de casa

Ele era tropeiro, levando e trazendo mercadorias entre São João e Diamantina, profissão de destaque quando o transporte e as estradas eram bastante precários.

Foi também o responsável por organizar a comemoração de 50 anos do reerguimento do cruzeiro que enfeita a entrada da cidade, fato marcante, percebi em minhas conversas. O monumento havia sido estraçalhado por um raio, ou corisco, como diz Seu Hélio, em 1905, “uma queda terrivel”, de acordo com ele.

“Corisco que derrubou o cruzeiro. Um padre, com muito sacrifício, conseguiu levantar. Até o presidente da República ajudou, o Francisco Rodrigues Alves, o João Pinheiro, governador de Minas ajudou, o pessoal do Biribiri ajudou. Caiu foi em 1906, uma queda terrível! E foi em 56 que eu trouxe o batalhão, 12 de novembro de 1956. Ele tem 85 palmos aquele cruzeiro, então ele é patrimônio da história. Em 56 fez 50 anos, e eu trouxe a banda aí num caminhão!”

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Cemitério ao lado do cruzeiro, na entrada do vilarejo

AS VERDADES INCONTESTÁVEIS

Pra me garantir que isso tudo era verdade, Seu Hélio fez questão de mostrar documentos, registros e fotos de livros, jornais e panfletos da época. Quase tudo marcado com as palavras “Lembranca de Hélio Verissimo Dias”. Quando conta essa história chega até a chorar um pouquinho, como já tinham me avisado que poderia acontecer.


Seu Hélio tem mania de documentar as coisas. Quando cheguei na porta de sua casa, bati e ninguém atendeu. Vi uma porta lateral entreaberta, decidi entrar de fininho e logo me deparei com uma amostra desse hábito dele. Era uma placa escrita pelo próprio para registrar sua participação na construção de uma ponte sobre o Rio Caldeirões.

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Ele documenta vários acontecimentos através da escrita e, quando seu nome está envolvido, se refere a si mesmo em terceira pessoa. Aquela não é a única placa ou o único registro que ele guarda. E esses documentos que ele mesmo produz são valiosíssimos. É o exemplo perfeito da força e do poder da palavra escrita. Com ela, ele torna aquelas narrativas em verdades quase incontestáveis.


Na parede do quintal de sua casa, onde ele e a esposa mantém uma horta linda, tinha um outro objeto que ele fez questão de me mostrar, para, nas palavras dele, eu “não contar a história pela metade”. Era a placa original de inauguração da ponte sobre o Canal do Barro, que segundo me contou, foi “roubada por marginais” e readquirida por ele próprio “por um real”


Mas a placa não fica à mostra, não. Ela fica virada pra parede porque na parte de trás ele escreveu, ou melhor, documentou a história de como a dita cuja foi parar em suas mãos.


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A placa de inauguração da ponte sobre o Canal do Barro

“Porque é que o senhor deixa ela virada?”


“Pra saberem da história, né”, respondeu deixando clara a obviedade da minha pergunta.


Me mostrou também um porta retrato com uma foto dele ao lado da tal placa em seu local original. Também na parte de trás, o seu registro daquela verdade.

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O registro da história atrás do porta retrato

Sobre a principal igreja do vilarejo, se orgulha de contar que “ajudou a puxar telha pra ela com a tropa”, mas a história é mais trágica. Me contou do incêndio que destruiu toda a riqueza que continha.


“Quando a igreja queimou eu tava no Quartéis do Indaiá. Dia 7 de abril de 46 foi que ela queimou, tinha acabado a Semana Santa. E tinha muito papel debaixo do assoalho, o sacristão num sabia. Toríbio tava na janela que caiu brasa, e o sacristão, com medo do Padre Romano xingar, pôs ela debaixo do assoalho. Tinha 100 lanterna que lumiava, com uma peça de nome achote, que fazia com material da serra e era aquilo que clariava. Aí queimou inteira. Uma riqueza. Num tinha coisa de água. A água era buscada no balde nas fonte. Sarvo muito poca coisa. Tinha uma mesa de comunhão, um trem feito com capricho. Tinha coisa banhada em ouro puro, um sino grande. Há comentário que o sino bateu na hora do fogo. Num se sabe se foi o vento”.


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Uma das igrejas de São João da Chapada

E me mostrou um papel antigo e amarelado com duas fotos: “aqui ela inteira, aqui ela destruída”. E embaixo dela os dizeres, “Lembrança de Hélio Veríssimo Dias”.


Papo chegando ao fim, Mariana perguntou se eu nao queria almoçar. As pessoas tem sido bem solidárias comigo. Só naquela semana duas famílias diferentes já haviam me dado almoço, e em Diamantina fui acolhido em uma república de totais desconhecidos, por sete dias, sem que me pedissem nada em troca. Deixo registrado meu agradecimento a Jonathan, Carol, Walter e Sávio.


Tive que recusar a terceira boca livre para não perder o ônibus de volta pra Diamantina. Mas ainda deu tempo de Seu Hélio me contar uma última história. Talvez contar não seja a palavra certa. Foi mais mostrar, mesmo.

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Dona Mariana, esposa de Seu Hélio

Da pastinha onde ele guarda toda essa documentação histórica, sacou um papel onde havia um texto bem no estilo dele, tudo corrido e em maiúsculas, e me pediu, “leia bem com carinho”.


Era a história um tanto confusa de uma torre encantada nas redondezas. Segundo ele conta, só existem duas dessa no mundo, uma ali em São João, e outra em Portugal. Houve um tempo, quando Seu Hélio ainda era criança, que um ruído que saia da torre assustava os moradores. Desconfiavam ser o piado da cobra de crista, animal perigoso e temido.


Mas paro por aqui. É melhor deixar as palavras escritas por Seu Hélio balizarem a verdade. Só a pontuação que fica por minha conta mesmo:

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Seu Hélio na sala, analisando seus registros

“Eu tava com 10 anos de idade quando num determinado dia eu e colega Luizinho Balaio fomos buscar animais no pasto de Dona Carmela. Esse pasto era de aluguel e eu fui buscar os nossos animais e ele foi buscar os dele. Por incrível que pareça, esses animais estavam todos juntos pertinho da torre encantada que tem nesse pasto. Eu amarrei meu animal numa árvore, ele amarrou o dele noutra e veio na minha cabeça ver que dentro dessa torre, o comentário era que tinha cobra de crista. Fiquei muito tempo escutando os ruídos. Verifiquemo que tinha uma hélice de quatro partes em cima dessa torre. Com o tempo o eixo dela se desgastou e ela não rodava mais. Roçava um ferro no outro e dava aquele ruído como se fosse o piado da cobra. Isso tornou-se pavor e medo. Essa torre tomou o nome máquina e era lugar que tinha muita água e as ponteiras lavavam roupa no capão, mas tinham pavor de ir nessa máquina sozinha. Só iam em grupo. E era curioso as ponteiras perguntar se ia na máquina ou no Capão. Porque uma sozinha era pavor de ficar lá. Preferiam pegar roupa pesada de molhada pra num ficar sozinha nessa máquina. Tinha até outras cobras que passavam em cima das roupas, mas o pavor era cobra de crista. Depois que eu e Luizinho comentemo que naquela torre num tinha cobra nenhuma, que era um ferro roçando no outro, virou ponto turístico. O comentário é que só tem duas torres dessa no mundo, uma em Portugal e uma nesse pasto, e num se sabe pra que ela foi construída”.

Achei bom terminar com essa história porque tenho me encantado com Gente que consegue transformar algo trivial em algo instigante e atraente só com o dom da palavra. Com esse poder, a narrativa acaba virando dona da verdade. E se me perguntarem “ô, Adriano, mas como é que pode uma história dessas?”, eu respondo “num sei, só sei que foi assim”.

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Seu Hélio e sua horta abundante

Placa da inauguração e a ponte sobre o Canal do Barro
Dona Mariana e sua máquina de costura
Igreja em São João da Chapada

A Vila do Biribiri
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7 comentários em “A praga do diamante roubado e as verdades incontestáveis de Seu Hélio

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  1. Muito bom mesmo, Adriano, acompanhar as histórias. As histórias de Seu Hélio me fizeram pensar em Riobaldo e nos personagens de Grande Sertão. beijos

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  2. Interessante! As palavras dominam o pensamento, de uma forma que todos podem perceber…São estórias ou histórias que acrescentamos em nosso conhecimento…Parabéns… Aguardamos outras…

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  3. Estes fatos me fizeram lembrar de fato ocorrido na mesma região, na década de 60, da morte de um garimpeiro de nome Rivalino, que teria sido abduzido por duas bolas de “fogo”, após encontrar grande diamante, que gerou grande especulação na época, e após seu corpo ser encontrado anos depois, mas isto é outra história.

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