A chula, o prato e a benzeção de Dona Miúda

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Vento virado, quebrante, espinhela caída, zipa, mau olhado, cobreiro, mordidura de cobra, de aranha e de lacraia. Isso tudo se cura na benzeção. Carne quebrada, nervo rendido e osso torto é na costura. A costura também é benzeção, mas se faz com agulha. E não é qualquer uma que funciona.

“Carne quebrada é assim: a pessoa cai, machuca um pé, uma perna, fica toda inchada. Aquela carne tá quebrada, o nervo tá rendido. Então me pedem ‘cê coze pra mim?’, ‘Cozo’. E já venho com a agulha, falando as palavras. É por fora que faz, a agulha é meu dedo mindinho. E as pessoas sente ele passando lá dentro, costurando. Osso torto é quebrar a carne, mas às vezes o baque foi tão grande que tira o osso do lugar. Aí a gente vem de lá pra cá. Vem do osso, pro nervo, e do nervo vem na carne, tudo com o dedinho”.

Quem me deu essa ‘aula de costura’ foi Dona Miúda, benzedeira que eu conheci em São João da Chapada, um distrito a uns 30 e poucos km de Diamantina (MG). Povoado humilde, com apenas duas ruas principais e várias casas em que só se chega a pé. A localização é quase perfeita, no alto de uma montanha, com uma vista maravilhosa.

O cemitério da cidade, no alto da montanha

Ali o povo é simples, e o maior passatempo é jogar conversa fora. No entardecer, as calçadas das casas ficam cheias de gente batendo papo, enquanto a criançada brinca na rua. Quando ofereci minha câmera e celular pra algumas que cruzei no caminho tirarem fotos, virou festa, e nao me deixaram ir embora.

Achei a coisa mais doida um menininho que, impressionado com os pelos na minha perna, ficou passando a mão pra entender melhor que raio era aquilo. Tenho aprendido que não precisa de muito pra entreter uma criança. Eu cortando salame com um canivete virou quase um show.

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Criançada se divertindo com as fotografias

Fui parar em São João por causa da tal Miúda. Tinham me falado sobre ela em Diamantina, mas foi coisa rápida, não tinha entendido direito o que ela fazia, nem o que eu iria encontrar; só guardei o nome mesmo. Peguei um ônibus e fui descobrir.

Cheguei lá e fui perguntando onde ela morava, até chegar na porta de uma casa branca. Toquei a campainha e um garotinho atendeu e me deixou entrar. Era só uma sala com chão de concreto, uma mesa, dois sofás e um quadro/relógio do padre Marcelo Rossi na parede. Uma porta levava pra uma área externa que dava acesso pro banheiro e pra cozinha de onde vinha o barulho de uma conversa com muita gente. Depois fui descobrir que na casa da Miúda a campainha não para e a cozinha fica sempre cheia. Ela é boa de papo, mesmo.

O menino Jadson foi quem atendeu a porta

Fui entrando meio na cara de pau e já cheguei cumprimentando todo mundo, só mulheres e crianças da família dela. A cozinha era apertada, mas aconchegante, principalmente por causa do fogão a lenha bem rústico e do café que ela logo me ofereceu. Falei que fui ate São João só pra conhece-la e ela ficou toda contente.

No começo, os papos ainda estavam mornos, afinal, eu era um total estranho dentro do ambiente delas, e ainda pairava uma certa desconfiança. É o preço, tô adorando chegar de surpresa nos lugares. Traz um ar de mistério tanto pra mim como pro outro.

Papo vai, papo vem, me vi sozinho na cozinha com uma mulher jovem e seus dois filhos. E foi aí que descobri que Miúda era benzedeira.

“Quer dizer que a senhora é benzedeira, Dona Miúda?”

“Eu benzo, mas tomei nome de feiticeira. Pra benzer vinha muita gente. Depois peguei e tirei de vir aqui, porque um povo falou que eu tava pondo feitiço neles.”

Dona Miúda e seu fogão a lenha

“E a benzeção, vou falar cocê, a benzeção é boa, mas é boa! E eu gosto, sinto o efeito”.

Uma das moças que cruzei na cozinha de Miúda me contou que leva os filhos pra benzer sempre que precisa.

“Quando começa a ficar chorando demais é mau olhado. Trago aqui, ela benze e para”.

Me disse também que Dona Miúda curou uma queimadura da brasa do fogão a lenha no pescoço do seu filho mais velho. Mostrou a marca, que era grande, e explicou que “ela benzeu e não passou nada no lugar”.

“A dor passa mesmo. Depois levei ele no médico em Diamantina, mas chegando lá o doutor disse que tava cicatrizando bem e nem pomada passou”.

Dona Miúda e o cafezinho que nunca falta em sua cozinha

Me contou outra história de uma ferida na perna de uma conhecida sua, que, segundo a médica, era bem capaz que amputassem.

“Deram uma pomada pra ela, mas deu alergia. Aí Dona Miúda começou a benzer; fechou!”

Em outros tempos eu desconfiaria, mas, como expliquei na primeira história do Gente, já não duvido de mais nada que minha realidade não me faz capaz de compreender. Ali o negócio funciona mesmo, e não sou ninguém pra provar o contrário, mesmo que o tratamento seja só na base da fé nas mãos e palavras de uma senhora.

A mão sagrada da Miúda

A conversa foi desenvolvendo e ficou ainda melhor quando Dona Miúda começou a detalhar as chagas e os tratamentos.

“Espinhela caída é assim: tem um ossinho aqui no meio do peito que fica caído, dói até as costas. Quebrante é a gente ficar mole, é a pessoa gostar muito da gente e a gente fica mole. Se a pessoa fica com dor de cabeça e frio, pode saber, tá com mau olhado. Vento virado a pessoa tá mal, faz uma coisa faz um chá, faz outro e a pessoa tá que nada para na barriga. É só enquanto come, sai, come, sai, come, sai. Pois aquilo ali, pega o menino -ou gente grande, porque eles também tem- e mede o pé dele. Se o dedo tiver assim, ó, um maior que o outro, tá com vento virado. Aí pega e benze, bate no dedo que tá grande e suspende ele, levanta o pé pra cima e baixa de novo, torna a fazer e torna a fazer. Menino eu pego ele pelas pernas e levanto mesmo”.

Quando perguntei como ela desvendou o dom, Miúda me disse que já nasceu com ele. Descobriu quando ainda não tinha nem cinco anos. Com um ar meio misterioso, me contou que salvou um bebê de amigos da família que já estava praticamente dado como morto.

“Os zóio dele não abria mais, e minha prima, ela chama Maria, menino dela tava assim, todo espichado. Eu vi aquele menino morto. Minha mãe chamou eles pra tomar um café. Ela pegou o menino, e eu fiquei olhando, e olhando, e olhando ele. Aí falei: ‘ô, mãe, põe ele aqui’. E ela: ‘no seu colo num vai caber. Tá gordo e todo espichado’. Mas eu peguei e fui benzendo ele, benzendo ele. Num perguntei por nome dele nem nada não. Fui benzendo, benzendo, ai cabei de benzer, fiz um nome do pai, falei pra mãe fazer e entreguei ele. Quando ela falou, o menino mexeu. Já fazia três dias que num mamava. E ele mexeu, abriu o olho e já mamou”.

A CHULA E O PRATO

A benzeção da Miúda é forte, mas não é só isso que ela faz. Tem 79 anos de idade, mas muita vitalidade pra ser uma das matriarcas do chula, dança originária do Quartel dos Indaiá, comunidade quilombola onde ela nasceu, não muito longe dali. Todo ano, Miúda sai na folia de reis mostrando a dança, que, segundo ela, começou quando “nem o pai, nem o vô eram nascidos”.

José Vicente, ex-garimpeiro do Quartel dos Indaiá

“Esse povo ficava tocando e dançando. Pegava uma ripa de coqueiro pra fazer a viola, outros batia no prato, outros ficava cantando na língua deles. E as mulher com aquele saião, todo mundo batucando. E quando era no outro dia, aqueles que tavam com as costas feridas, o pescoço ferido, de manha já num tava mais, já tava são. Foi aí que falaram: todo dia nóis vai fazer essa dança. E batizaram de chula”.

Como não entendi muito bem o que ela quis dizer com “outros batia no prato”, pedi pra explicar melhor. Não teve dúvida, tirou um prato de ferro do escorredor ao lado da pia e começou a tocar.

Na falta de pandeiro, os escravos usavam pratos pra fazer a percussão, e a música dela é uma forma de homenagem muito valiosa. O chato da história é que a tradição de séculos sofre para se manter viva.

São poucas as pessoas que ainda tocam e dançam, e conforme a gente que ainda tenta manter a folia vai morrendo, o chula vai desaparecendo aos poucos. No ano passado, por exemplo, o evento foi cancelado porque um dos principais sanfoneiros faleceu poucos meses antes, e não havia quem o substituísse.

Miúda me contou que a secretaria de cultura de Diamantina tenta animá-la para não deixar o chula morrer. Mas a grande esperança dela é que a família leve a história adiante.

Carapiá da horta de Miúda; a erva serve para descongestionar as vias aéreas

“Esse ano querem que eu prumo a folia pra num deixar morrer. Essa aqui era do chula”, diz apontando pra neta Paula. “E essa aqui já dança. Dança mesmo. Falo que é a Miúda segunda”, diz gargalhando, se referindo à bisneta Juju, de apenas um ano.

A neta e a bisneta moram com Miúda. O menino João também. Ele é uma das 19 crianças que a benzedeira acolheu em sua casa.

“Tudo sem pai, pai que morreu, e vou acolhendo. Assim que sabem que vão morrer já pedem pra eu olhar. Aqui desse lado do rio quem faz isso é ieu”.

João, sobrinho, neto e afilhado de Dona Miúda

BENZEÇÃO À DISTÂNCIA

Horas a fio de papo, e a noite foi chegando. Eu tinha que seguir meu rumo pra encontrar a pensão do Baginha, onde eu dormiria naquela noite. Me despedi de Miúda, da neta e bisneta e fiquei muito feliz com o agradecimento sincero por eu ter ido ao encontro dela.

São esses os momentos que dão sentido à minha jornada. Tenho extraído tanto conhecimento dessa sabedoria da Gente Brasileira, e quando vejo que eu consegui oferecer algo em troca me sinto um pouco mais completo.

Aproveitei a deixa da despedida pra pedir uma bênção pro restante da minha jornada, mas a Miúda me explicou que não poderia dizer as palavras necessárias sem que algo já me acometesse. Ela me garantiu, porém, que, no momento que eu precisasse, eu poderia ligar para ela para fazer uma benzeção à distância.

“Mas, Miúda, a senhora benze por telefone?”

“Benzo, também”.

“E como é que a senhora vai usar a sua mão se eu tiver longe?”

“Uai, eu faço daqui mesmo”, disse, passando o dedo em minha testa. Assim segui meu rumo tranquilo, tranquilo

 Dona Miúda e crianças na sua casa

 Fotos tiradas pela criançada de Sao João da Chapada

*O texto foi editado a pedido de uma das personagens, que preferiu não ser identificada, e infelizmente perdeu um pouco do sabor. Peço desculpas aos leitores.

25 comentários em “A chula, o prato e a benzeção de Dona Miúda

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  1. Obrigada, Adriano! Seguir sua jornada está sendo um grande privilégio. A oportunidade de pegar carona com você e ir conhecendo essas pessoas lindas, esse Brasil tão genuíno e rico. Vamos nos dando conta o quanto somos ignorantes e fúteis na nossa soberba paulistana. Beijo e aguardo as próximas descobertas.

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  2. Quando for novamente a São João da Chapada vá na casa do meu avô Hélio Dias. Ele tem muitas histórias pra contar de quando era tropeiro. Ele tem 90 anos e conhece muito sobre as origens do Distrito e de alguns lugares próximos como o famoso canal do barro. Minha avó Mariana Dias de 89 anos já foi funcionará da antiga fábrica do Biribi tem muitas histórias também.

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  3. Oi eu tbm sou de são João dá chapada,conheci dona miúda quando criança,povo aconchegante,MTS anos q não vou na minha terra, saudades, obrigada por mostrar um pouco dá cultura do povo brasileiro 😘

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  4. Maravilhoso! Vi um vídeo dela em um documentário em que ela canta vários pontos da umbanda. Pesquisando sobre essa benzedeira fenomenal, cheguei até aqui! Viva a cultura brasileira genuína!

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