O ouro do sertão mineiro e a família da Íris

O primeiro destino da minha jornada foi Virgem da Lapa, cidade de 14 mil habitantes no sertão mineiro. É a terra de Íris, mulher de luta, que trabalhou como doméstica por 22 anos em minha casa, em São Paulo.

Com um problema crônico no joelho direito ela se aposentou e voltou pra terra dela, onde comprou uma casa espaçosa e confortável. Generosa, cedeu parte do terreno para que o irmão Martim construísse uma também.

Nosso reencontro emocionou. Eu não tinha avisado que ia pra lá. Achei que a surpresa deixaria a coisa mais interessante. Acertei.

Depois de 23 horas num ônibus, cheguei um dia antes do aniversário dela. Fui perguntando para a gente da cidade, encontrei sua casa e, do portão, bati palmas para anunciar minha chegada.

Ela olhou desconfiada pela porta e não me reconheceu de primeira. Barba na cara e mochila nas costas, depois ela me falou que achou que eu fosse um vendedor ou qualquer outra coisa.

“Não tá me reconhecendo, Íris?’’

“Adriano?!’’

Íris na feira livre de Virgem da Lapa

Portão aberto, a gente se abraçou e não consegui segurar umas lágrimas, bom hábito, tenho percebido. As dela foram muitas.

Morando sozinha, as fotos minhas e de minha família espalhadas por sua casa mostram o apreço que ela mantém por nós, mas também afligem. Em minha visita, muitas vezes fui identificado como “o filho do patrão de Íris’’. Isso me causava um sentimento misturado.
“Qual é o patrão que sai de São Paulo pra vir até Virgem da Lapa fazer uma surpresa dessa? Ninguém faz isso, não. É muita consideração’’, me disse Jovane, dono da mercearia onde eu tomava cerveja à noite e amigo da família de Íris.

Saber que ele estava certo é o que fazia esse sentimento se manifestar. Por um lado, o meu desprezo pela hierarquia me deixava incomodado por ser visto como patrão. Por outro, me deixava feliz ver a surpresa de muitos com a consideração -palavra muito usada pelas pessoas para definir o motivo de minha visita e a alegria que eu trouxe à Íris- que eu estava demonstrando pelos mais de 20 anos de relação.

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O nosso mundo é tão de cabeça pra baixo que visitar uma pessoa com quem convivi por mais de 20 anos é visto como consideração.

Conheci muita gente nos sete dias que passei em Virgem da Lapa. A cidade é pequena, simples. Comércios locais, todos se conhecem. Se alguém morre, todo mundo fica sabendo. Os diálogos são desse jeito:

“É o filho de dona Isabel da farmácia. Prima de Dezinha, mulher de Seu Torinho, sabe?”

“Ahh! Sei sim! Era aquele que entregava água, né?”

“É esse!”

Minha presença era percebida na cidade e o povo ficava curioso com uma visita de alguém tão diferente. Não foram poucas as vezes que eu conhecia gente que me falava que já tinha me visto pela cidade ou que já sabia quem eu era.

Dona Geralda, que pediu pra eu fotografar sua cozinha

A câmera, e eu puxando papo com desconhecidos, chamava a atenção da galera. Os pais da Íris foram desses que acharam curiosas as minhas ideias.

OS MOURA, E O OURO DO SERTÃO MINEIRO

Apesar de ter chegado na quarta (1), só fui conhecer eles, Lilico e Liquinha de Moura, no sábado (4). São raros os momentos que eles saem da roça onde moram e vão pra cidade. Em geral, só passam por lá aos sábados, dia de feira.

Fizeram questão que eu fosse. Chegam cedo, fazem as compras da semana, almoçam na casa da Íris e voltam pra casa.

Passam toda a semana na roça mesmo, com alguns frangos e galinhas, uma porca, mas sem plantação porque a seca dos últimos dois ou três anos não tem permitido.

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Íris é seus pais, Liquinha e Lilico, na casa onde o casal vive e onde nasceram os filhos

A casa ainda é a mesma onde a Íris nasceu. Fica no mesmo quilômetro quadrado onde os dois viveram por todos os seus 83 e 84 anos. Eram primos e se casaram, como era comum na região.

Não sabem precisar há quanto tempo estão casados, nem mesmo quando nasceu o primeiro filho. O garoto não viveu muito. Morreu aos 18 com a cabeça prensada num moedor de cana de tração animal, num acidente trágico.

“Num deu tempo dele escapar’’, segundo a mãe. Dos dez filhos, ficaram só cinco.

A paisagem é seca e quente e o silêncio é o senhor na relação dos dois. Carregam uma timidez quase inocente, especialmente Lilico, o pai. Para tirar fotos da Liquinha só na base da surpresa. Tive que negociar pra tirar a foto dos três juntos. Comi um prato do arroz com torresmo dela e ela apareceu na minha foto.

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Liquinha e Lilico na varanda de casa

Segundo a Íris, “mamãe trabalhava em serviço pesado”.

“Eu lembro assim: papai trabalhando na roça, e ela ia com aquela comida na cabeça. Eu ia caminhando, e ela arrastava o menino. Ai, aquele sofrimento. E papai trabalhando no sol”.

“E num tinha muita água, sabe? Quando a água minava do chão, a gente catava, mas quando o córrego secava, a gente tinha que pegar água na barragem. Era loonge.”

A cidade se formou em torno da extração do ouro. A família plantava e criava animais para subsistir, mas, assim como muitas outras, garimpava no córrego próximo da casa.

A Íris me contou que com 13 anos já lavava ouro. Na semana eram três dias pra lavar ouro e os outros três na roça.

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Lilico caminha pela feira livre, na praça central de Virgem da Lapa

“A gente ia pro córrego, ali pertinho de casa, e meu pai furava um buraco, que eles chamam cata, né. Quando a cata tava bem funda, ele tirava o cascalho, punha na bateia e a gente lavava, balançava assim, ó”, mostrando o movimento pra decantar o ouro no fundo da bateia.

Hoje, o garimpo do ouro diminuiu na cidade e as águas estão mais sujas por causa do esgoto. Conversei com umas pessoas que ainda lavam ouro na cidade. Me dizem que o grama vale uns R$ 100.

Mas pro Martim, irmão da Íris, o grama ‘deveria valer uns R$ 300, porque o trabalho que dá…’

Apesar do preço alto,muita gente anda pela cidade com algum acessório dourado.

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Brincos e colar forjados com ouro colhido pela família

Segundo a Íris, todo dia tiravam umas três quatro gramas de ouro, mas lembra que o trabalho era puxado.

“Tinha vez que mamãe levava esses menino dela, punha debaixo da sombra, ficava o dia inteiro lá, tirando ouro, dava o peito pra menino com leite quente. A gente sofreu foi pouco. Como eu sofri na minha vida. Crendiospai, Deus me livre! Hoje, nessa vida que a gente vivia um tempo atrás, é um mar de rosa. Mar de rosa!”

Tempos atrás em São Paulo, ela já tinha me contado essa história de pegar ouro. Mas ouvir estando ali no lugar, vendo onde e como acontecia, a cabeça interpreta de outra forma.

E aí vejo como falamos de tanta coisa sem conhecer de verdade a realidade. Nos vestimos de razão, somos tão espertos.

O jeito é buscar o encontro, ouvir mais que falar e ir absorvendo, absorvendo, e a cabeça vai abrindo, abrindo, abrindo

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Liquinha em duas das poucas fotos que consegui ‘roubar’

Produtos da região na feira de sábado
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37 comentários em “O ouro do sertão mineiro e a família da Íris

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  1. Precisamos ser mais “escutadeiros” (como diz Eliane Brum) e menos “faladeiros”. A escuta exige uma generosidade que não está em voga nos dias de hoje nas grandes metrópoles. A prepotência nos domina. Lindo ver você se abrindo para o mundo dessa forma sensível e generosa. Obrigada por compartilhar suas lindas vivências através de seu olhar delicado e perspicaz. Uma maravilha ler seu testemunho. Nesse país onde diariamente nos vemos enojados por uma elite política tacanha e retrógrada, um alento ler seu texto nos mostrando que o Brasil é muito maior e que os brasileiros, de fato, valem esse país. É aquela frase comum, mas verdadeira: o melhor do Brasil é o povo brasileiro. Viva!

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  2. E ao ler o seu texto, o sentimento que fica é de saudades dessa terra tão bonita; e como diz a canção “Vai diminuindo a cidade… Vai aumentando a simpatia … Quanto menor a casinha … Mais sincero o Bom Dia… (Pato Fu)”

    Parabéns pelas palavras que descreveram tão bem Íris, uma mulher simples, batalhadora e de uma coração enorme!!!

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  3. Que maravilha!Sou de Virgem da Lapa e trabalho com agricultores familiares do município. Lindo texto, linda homenagem e muito lindo o sentimento que vc transmitiu nele. A cidade aqui, em sua maioria, são de trabalhadores rurais e a família da Iris representa o que passa o nosso povo neste Vale. Acho que lembro de vc na feira fazendo as fotos….RS… Parabéns!

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  4. Taí…. grata surpresa! Lindo seu relato. Mais que isso: sensível, observador, interessante. Valeu ter curtido sua página. Muitos amigos vão gostar de “viajarem com você”. Indicarei!
    Abraços e boa caminhada. Aguardo os casos de Milho Verde.

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  5. Que legal. Moro em Boituva interior de São Paulo, mas somos os vizinhos da Liquinha e Lilico. Sou amiga da Iris. Realmente era essa vida que levávamos esse sofrimento todo. Quando vou pra Minas ainda garimpo. Meu sonho é voltar pra lá também de vez. Porém ainda não estou preparada. Parabéns pela matéria . Conte conosco para mais historias

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    1. Fico feliz de ter conseguido ver, enteder e mostrar um pouco dessa realidade tão linda e dura ao mesmo tempo, Clarice. Espero poder mostrar mais e mais Brasil afora. Vem com a Gente 😉

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  6. Lindo texto. Com uma protagonista que expressa e traduz exatamente o que é ser do Vale do Jequitinhonha, o que é ser Virgolapense, o autor conseguiu extrair o que há de mais belo e verdadeiro em nossa amada terra. Não fosse eu nascida e criada debaixo desse sol escaldante, não conhecesse essa maravilha de lugar, certamente ia querer conhecer após ler a matéria.
    Espero que faça uma linda e longa viagem, porque cada matéria é um verdadeiro presente aos leitores.

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  7. Mestre Dribas, além de um amigo você ganhou um fã e um grande admirador. Puta texto, puta história. Parabéns, vou seguir acompanhando sua jornada.

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  8. Adorei o texto e a história. Mas um trecho me tocou de modo especial:: “O nosso mundo é tão de cabeça pra baixo que visitar uma pessoa com quem convivi por mais de 20 anos é visto como consideração.”…

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